Um operário da luz

Julio Le Parc, que usou a luz como forma de educar o olho, morreu aos 97 anos em Paris, deixando uma retrospectiva na Tate Modern e uma obra que ainda precisa ser lida.

Julio Le Parc nasceu em 1928 numa família de ferroviário em Palmira, Mendoza, e chegou a Paris em 1958 com uma bolsa do governo e nenhum dinheiro. Chamou esse momento de seu "Ano Zero". Tinha trinta anos, falava pouco francês e havia abandonado a Escola de Belas Artes de Buenos Aires antes de concluir o curso. Frequentara, além disso, assembleias estudantis e ocupações, bem como viajara de carona pelo interior argentino em contato com grupos anarquistas e marxistas. A academia lhe parecia, como a maioria das hierarquias, um obstáculo para a percepção.

Mas o que ele foi fazer em Paris não era exatamente arte e, sim, pesquisa. Retomou Mondrian, os construtivistas russos e Vasarely para entender como regras combinatórias, quando aplicadas sistematicamente, são capazes de produzir instabilidade. A ideia, no fim das contas, era desorientar o olhar — ao modo de um músculo que precisasse ser exercitado para funcionar de forma verdadeiramente crítica. Disso, nasceram as primeiras séries de pinturas modulares em preto e branco, que não passam de grades de sinais encadeados por regras previamente estabelecidas nas quais a mão do artista desaparece de propósito.

Em 1960 cofundou o Groupe de Recherche d'Art Visuel, o GRAV, com François Morellet, Yvaral e Francisco Sobrino, entre outros. O grupo publicou manifestos com títulos como "Assez des mystifications" [Chega de mistificações] e se apresentava em locais alternativos e nas ruas, distribuindo questionários ao público que pediam avaliações das obras, das instituições e do próprio artista. Era uma crítica institucional em formato de brincadeira — e Le Parc nunca abandonou esse duplo registro...

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