
Sob sucessivas camadas de tinta branca aplicadas ao longo de décadas, o palacete do Parque Lage começa a revelar o que ninguém desta geração havia visto. A restauração em andamento, a maior intervenção no imóvel em quase cem anos, já ultrapassou 60% de conclusão e vem descobrindo pinturas decorativas, texturas, elementos em folha de ouro e detalhes arquitetônicos que estavam completamente ocultos.
Projetado pelo arquiteto italiano Mario Vodret na década de 1920, o palacete foi encomendado pelo empresário Henrique Lage para sua esposa, a cantora lírica italiana Gabriella Besanzoni, e construído num estilo eclético com forte influência italiana. As pinturas decorativas são atribuídas ao artista Salvador Pujals Sabaté. No antigo salão de jogos surgiram composições geométricas complexas com cores e ornamentos inteiramente invisíveis até agora. Nos aposentos, estrelas douradas reapareceram e serão novamente aplicadas com folha de ouro. No teto do quarto de Gabriela, um anjo se revelou sob a tinta.
O processo é conduzido com instrumentos cirúrgicos: espátulas finas, bisturis, pincéis e solventes específicos. “As surpresas acontecem no início, quando abrimos as primeiras janelas na pintura. A maior surpresa foi ver a qualidade desses materiais e como conseguiram se preservar ao longo das décadas”, disse a restauradora Alice Medina. Nos metais, gradis e portões revelaram marcas de fabricação e soluções de serralheria que não se fazem mais. “É quase uma arqueologia do ferro”, descreveu o restaurador Elísio Moura Barros.
Cada intervenção passa por validação do Iphan e do Inepac. Cerca de 120 profissionais atuam na obra, entre restauradores, artistas plásticos e técnicos. A conclusão está prevista para o final deste ano, quando o palacete que recebe 1,3 milhão de visitantes por ano deverá ser visto de forma inteiramente nova.