Morre Betye Saar, pioneira da assemblage que confrontou o racismo, aos 99 anos

Artista de Los Angeles, que completaria 100 anos na quinta-feira, morreu enquanto dormia; carreira de sete décadas dissecou o racismo americano através de objetos encontrados

Foto: David Sprague. Cortesia da artista e Roberts Projects

Betye Saar morreu enquanto dormia na madrugada de domingo, 26 de julho, quatro dias antes de completar 100 anos. A informação foi confirmada pela galeria que a representava, a Roberts Projects, em Los Angeles. Ao longo de sete décadas, a artista construiu uma obra que usava objetos encontrados — móveis, estatuetas, penas — reorganizados de modo a expor a persistência do racismo na sociedade americana.

É impossível falar de sua trajetória sem mencionar “The Liberation of Aunt Jemima”, de 1972, sua obra mais conhecida. No centro da peça, uma estatueta racista do estereótipo da “mammy” segura uma vassoura sobre uma base de algodão; embutida em seu torso, uma pintura mostra outra figura semelhante carregando uma criança branca, com um punho do Black Power sobreposto. O choque vem do que Saar acrescentou: um rifle e uma pistola nas mãos da figura, transformando um símbolo de subserviência em uma guerreira pronta para se libertar a qualquer custo. Ao fundo, a obra reproduz em série a imagem de Aunt Jemima, personagem que estampava caixas de mistura para panquecas até a Quaker Oats abandonar a marca em 2020, após o assassinato de George Floyd. Saar concebeu a peça para a mostra “Black Heroes”, no Rainbow Sign Cultural Center, em Berkeley, organizada em resposta ao assassinato de Martin Luther King Jr.

Essa lógica de reapropriação atravessa toda a sua produção. Em “The Phrenologist’s Window” (1966), um dos primeiros trabalhos mistos da artista, ela usa a moldura de uma janela — que descrevia como uma passagem entre níveis de consciência — para expor diagramas da frenologia, pseudociência que pretendia justificar a superioridade branca a partir de medições cranianas. Outras peças recorrem a metáforas como gaiolas para a escravidão ou pássaros para a era Jim Crow, além de matérias-primas ligadas à economia escravista, como algodão e índigo.

Com o tempo, sua obra ganhou escala de instalação. “I’ll Bend But I Will Not Break” (1998), atualmente exposta nas David Geffen Galleries do LACMA, parece à primeira vista uma cena doméstica: uma tábua de passar roupa diante de um lençol recém-passado. Só de perto se percebe que a tábua reproduz uma gravura do século 18 mostrando africanos amontoados em navios negreiros durante a travessia do Atlântico, enquanto o lençol traz bordadas as letras “K.K.K.”

Grande parte do material usado por Saar vinha de décadas frequentando mercados de pulgas e lojas de antiguidades, hábito que manteve até os 90 anos. Esse acervo, formado majoritariamente por memorabilia racista, tinha um propósito claro: a artista já havia refletido sobre como imagens caricatas, se fossem as únicas representações disponíveis, poderiam moldar não apenas a forma como brancos viam pessoas negras, mas como estas se viam a si mesmas.

Nascida Betye Irene Brown em 30 de julho de 1926, em um bairro majoritariamente negro de Hollywood, era a mais velha de três filhos. O pai morreu quando ela tinha seis anos, após ser atendido em um hospital distante devido à segregação racial dos serviços de saúde — episódio que ela associaria décadas depois a uma de suas primeiras experiências diretas com o racismo institucional.

Formada em design pela UCLA em 1949 — escolha que, segundo relatou em 1975, refletia a falta de incentivo que artistas negros recebiam na época para seguir carreira nas artes —, Saar só começou a produzir arte por volta dos 35 anos. Casou-se em 1952 com o ceramista Richard Saar, com quem teve três filhas, duas delas também artistas: Lezley e Alison.

Sua carreira teve reconhecimento institucional relativamente cedo, com exposições no Whitney (1975), no SFMOMA (1977) e no Studio Museum in Harlem (1980). O reconhecimento internacional, porém, só se consolidou mais tarde: em 2017, ganhou novo destaque com “Soul of a Nation: Art in the Age of Black Power”, na Tate Modern, e em 2019 recebeu o Prêmio Wolfgang Hahn, do Museu Ludwig, ano em que também foi tema de individuais no LACMA e no MoMA.

Nos últimos anos, Saar voltou a atenção para o próprio legado: em 2018, seu arquivo foi a primeira aquisição da African American Art History Initiative do Getty Research Institute, e em 2019 lançou o Betye Saar Legacy Group, hoje conduzido por sua filha Tracye Saar-Cavanaugh e pelas irmãs Lezley e Alison.

Saar deixa seis nietos e, segundo nota da família, sua tartaruga-de-patas-vermelhas, Rojo.