
Existe gente que coleciona quadros. Bernardo Paz coleciona paisagens inteiras. Não satisfeito com o instituto que já transformou o povoado mineiro de Brumadinho num dos endereços mais improváveis do circuito internacional de arte, o empresário decidiu abrir, literalmente ao lado do Inhotim, um segundo território dedicado só a sua coleção pessoal, hoje avaliada em cerca de três mil obras assinadas por nomes de peso da cena contemporânea global. O bilhão de reais já investido no projeto dá a medida do apetite: quinze mil árvores plantadas e um plano que prevê, ao todo, até quarenta galerias espalhadas pela mata.
A primeira leva de pavilhões, com inauguração marcada para setembro de 2027, vai reunir três nomes: a italiana radicada em São Paulo Anna Maria Maiolino, o americano Michael Heizer e a mineira Sonia Gomes. Maiolino escolheu reencenar, no coração de sua galeria, uma peça que já havia passado pela Bienal de São Paulo nos anos 1990, “De Vita Migrare”, um túmulo cercado de água parada que ela usa como metáfora recorrente para o desenraizamento das migrações, tema que a persegue desde sempre e que ela costuma resumir dizendo se sentir uma eterna estrangeira, onde quer que esteja.
Heizer chega como um dos grandes nomes vivos da land art, a vertente que trata a própria terra como matéria escultórica, e ganhará um espaço só para si. Ao lado dele, Sonia Gomes ocupa o pavilhão vizinho com suas esculturas de tecido remendado, capazes de oscilar entre o gesto miúdo de um bordado e a presença de uma peça monumental suspensa no espaço.
No fundo, o que Paz está fazendo é replicar a própria fórmula que deu certo da primeira vez: em vez de artista e obra convivendo dentro de um mesmo prédio institucional, cada nome ganha seu próprio templo arquitetônico, perdido dentro de uma vegetação pensada tanto quanto qualquer curadoria. A novidade, dessa vez, não está na receita, que já é conhecida, mas na escala do gesto: como se um museu do tamanho do Inhotim já não fosse suficiente para caber tudo que ainda falta mostrar.