
O júri internacional da 61ª Bienal de Veneza renunciou em bloco na quarta-feira, 30 de abril, nove dias antes da abertura do maior evento de arte contemporânea do mundo, numa decisão que expõe as tensões entre o circuito global da arte e os conflitos geopolíticos em curso.
A renúncia veio dez dias depois de o próprio júri ter declarado, em 22 de abril, que não consideraria para o Leão de Ouro e o Leão de Prata — as principais premiações da Bienal — os pavilhões de países cujos líderes respondem por crimes contra a humanidade no Tribunal Penal Internacional. A declaração efetivamente excluía da disputa os pavilhões da Rússia e de Israel, ambos participantes desta edição.
“Como de 30 de abril de 2026, nós, o júri internacional selecionado por Koyo Kouoh, diretora artística da 61ª edição da Bienal de Veneza In Minor Keys, renunciamos”, diz a declaração conjunta assinada por todos os membros. “Fazemo-lo em reconhecimento à nossa Declaração de Intenção emitida em 22 de abril de 2026.”
O júri era presidido por Solange Oliveira Farkas, fundadora e diretora artística da Associação Cultural Videobrasil, e integrado por Zoe Butt, curadora e diretora artística do deCentral, em Chiang Mai; Elvira Dyangani Ose, diretora artística da Bienal de Arte Pública de Abu Dhabi; Marta Kuzma, professora da Yale School of Art; e Giovanna Zapperi, professora da Universidade de Genebra. Todos os cinco membros assinaram as duas declarações.
O grupo havia sido escolhido pessoalmente por Koyo Kouoh, a curadora suíço-camaronesa que morreu em maio de 2025 antes de ver a edição que havia concebido. A renúncia deixa a Bienal sem mecanismo de premiação às vésperas de sua abertura, em 9 de maio. A organização do evento não se pronunciou publicamente sobre como pretende responder à situação. A Bienal de Veneza foi fundada em 1895 e nunca havia enfrentado uma circunstância equivalente em sua história.
A participação da Rússia na Bienal havia gerado controvérsia desde que foi anunciada. O país esteve ausente nas edições de 2022 e 2024, após a invasão da Ucrânia, e seu retorno neste ano foi amplamente criticado por artistas e instituições. A participação de Israel também motivou protestos, em meio ao conflito em Gaza. Em ambos os casos, a Bienal manteve a decisão de permitir a presença dos países, argumentando que os pavilhões nacionais são escolhidos e geridos pelos próprios governos de forma autônoma, sem interferência da organização.
A declaração de intenção do júri, emitida em 22 de abril, citava explicitamente “a responsabilidade histórica da Bienal como plataforma que conecta a arte às urgências de seu tempo” e o compromisso com “o espírito do projeto curatorial de Koyo Kouoh” como fundamentos da decisão de excluir os pavilhões da disputa. A renúncia formal, oito dias depois, preservou a posição sem deixar a instituição numa situação jurídica indefinida em relação ao processo de premiação.