
Koyo Kouoh dizia que quando precisava de inspiração ia dormir e que não precisa convencer ninguém. Gostava de whisky sour, ouvia Massive Attack e criou quatro filhos. Em algumas entrevistas, repetiu que construir a própria casa em vez de tentar entrar no castelo dos outros está entre as premissas que levou para a vida. Na madrugada do dia 9 para o dia 10 de maio de 2025, morreu prematuramente por conta de um câncer quando estava em Basileia, na Suíça, aos 57 anos — algumas semanas antes de anunciar o título da Bienal de Veneza que foi convidada a dirigir (além de ter sido a primeira mulher africana a ocupar esse posto).
Nasceu em Douala, a maior cidade dos Camarões, em 1967, e foi para a Suíça aos 13 anos para se juntar à mãe, que a criava sozinha em Zurique. Fez uma formação bancária e depois trabalhou como assistente social com mulheres migrantes. O percurso é de alguma forma tortuoso para quem acha que há uma única porta de entrada para o mundo da arte — e Kouoh deve ter passado a vida inteira questionando exatamente isso. Em 1996, deixou Zurique e voltou ao continente. Trabalhou como curadora em Dacar antes de fundar, em 2008, a Raw Material Company: um centro de arte independente, expansivo, instalado numa cidade com poucas instituições de arte contemporânea e vocação para construir o que ainda não existia.
O nome era um manifesto inteiro numa frase. Matéria-prima: o que existe antes de ser processado pelo sistema, o que o circuito internacional ainda não havia sabido ver ou decidido valorizar. A Raw Material Company não era galeria nem museu no sentido convencional, porque inclinava mais para uma plataforma de pensamento, publicação, residência e formação com a consciência clara de que o ecossistema artístico africano precisava de infraestrutura própria ao invés da delegação às instituições europeias que historicamente determinavam o que entrava na história e o que ficava de fora.
Em 2019, assumiu a direção executiva do Zeitz Museum of Contemporary Art Africa, em Cape Town — o maior museu dedicado à arte africana contemporânea do mundo, instalado nos silos de grãos do porto convertidos pelo arquiteto Thomas Heatherwick. O museu passava por turbulências quando ela chegou. Em poucos anos, Kouoh o reorganizou, aprofundou o programa curatorial e formou uma equipe majoritariamente composta por mulheres negras, a quem deixou a instituição ao partir. Ela mesma resumia sua vocação com uma frase que tinha algo de mecânica ou vocação: “Gosto de reparar. Pegar instituições complexas e torná-las viáveis no longo prazo.”
A última grande exposição que assinou em vida foi “When We See Us: A Century of Black Figuration in Painting”, inaugurada em fevereiro de 2025 no Bozar, em Bruxelas, com mais de 150 obras de cerca de cem artistas de gerações e origens diversas. A mostra partia de uma irritação precisa: a pintura figurativa africana havia sido apresentada na última década com um olhar muito estreito, quase sempre filtrado pela tríade escravidão-colonização-apartheid. “Nossas histórias estão sob tanta pressão dessa trindade que é preciso se libertar dessa temporalidade”, disse ela. A exposição foi uma resposta visual e histórica a esse enquadramento.
A nomeação para Veneza chegou como reconhecimento do que o campo já havia feito por conta própria. Kouoh seria apenas a segunda curadora vinda do continente africano a dirigir a Bienal — depois do nigeriano-americano Okwui Enwezor, que assinou a 56ª edição em 2015 e morreu em 2019 sem ver o desdobramento pleno do que havia inaugurado. A coincidência é incômoda demais para ignorarmos: os dois curadores africanos mais importantes da história da Bienal de Veneza morreram antes de ver o que plantaram chegar à maturidade. Enwezor tinha 55 anos. Kouoh, 57.
Mas a Bienal de 2026 será realizada segundo a visão que ela deixou. E quem conhecia um pouco do que ela pensava ou escrevia sabe o que esperar: vozes africanas no centro, não na margem, e uma recusa firme a qualquer narrativa que reduzisse o continente ao papel de vítima ou de descoberta recente. “O relato do continente foi amplamente definido por outros — e ainda é”, dizia ela desde os silos de grãos do porto do Cabo convertidos em museu. “Não tenho o menor interesse em uma imagem depreciada de nós mesmos. Não há nada de diminutivo no adjetivo africano.”
A Europa e a América, ela costumava dizer, eram lugares onde se chegava depois de anos sendo observado até poder entrar. Ela, no caso, conseguiu cair para dentro e ainda deixou, em Dacar e em Cape Town, duas casas que não precisam do castelo de ninguém para continuarem existindo.