
Antes conhecida por criar cenografias monumentais para shows de grandes artistas do mainstream como Beyoncé e U2, óperas e grandes eventos, Es Devlin passou, nos últimos anos, a reduzir a escala e se aproximar do detalhe, desacelerando o olhar. O trabalho de imersão da artista deixa de ser um espetáculo distante e passa a operar como um espaço de proximidade, onde o espectador é colocado dentro da obra.
Nascida em Londres, Devlin construiu uma carreira de mais de três décadas atravessando teatro, música e arte contemporânea. Seu trabalho inclui desde cenários para turnês musicais até projetos para instituições como a Tate Modern e a Serpentine, sempre articulando luz, linguagem e arquitetura em estruturas imersivas. Nos últimos anos, no entanto, sua produção ganha outro peso: temas como ecologia, linguagem e interdependência passam a organizar sua pesquisa, deslocando sua prática para um campo mais explicitamente crítico.
É nesse contexto que se insere “Come Home Again”, apresentada no Brasil na exposição “Sou o Outro do Outro”, em cartaz na Casa Bradesco. A obra condensa esse momento de inflexão a partir de um procedimento simples e insistente: o desenho manual de 243 espécies ameaçadas que habitam Londres. Ao longo de alguns meses, Devlin passou horas registrando pássaros, insetos, fungos e plantas, transformando o ato de desenhar em uma prática de observação contínua, quase meditativa.
Esse conjunto se expande em uma estrutura em forma de cúpula, inspirada diretamente na St Paul’s Cathedral, em Londres. Mas aqui, a referência não se limita a uma citação arquitetônica. A cúpula, historicamente associada ao sagrado, é transferida para outro campo: em vez de organizar a relação entre humano e divino, passa a enquadrar a coexistência entre espécies. O que se constrói não é exatamente um monumento, é um ambiente onde diferentes formas de vida são colocadas em inter-relação.
Ao reunir diversas espécies, muitas delas invisíveis no cotidiano urbano, Devlin tensiona a própria ideia de cidade. Londres deixa de aparecer como um espaço exclusivamente humano e passa a ser entendida como um ecossistema em disputa, onde diferentes formas de vida coexistem sob pressão constante.

Inserida em “Sou o Outro do Outro”, a instalação amplia essa discussão ao propor um deslocamento de perspectiva. O título sugere uma espécie de descentramento, reconhecendo-se a partir daquilo que não é humano, ou que escapa à lógica de centralidade que organiza a experiência contemporânea. A obra acompanha esse movimento sem didatismo, reorganizando o campo sensível em vez de explicá-lo.
Sem recorrer à espetacularização da crise ambiental, Devlin constrói uma resposta mais contida e, talvez, por isso, mais incisiva. Em vez de ampliar o ruído, ela insiste no gesto mínimo: desenhar, nomear, escutar.
Serviço
“Sou o Outro do Outro”
Artista: Es Devlin
Curadoria: Marcello Dantas
Período: 15 de março a 27 de julho
Visitação: terça a domingo, das 12h às 20h
Local: Casa Bradesco
Endereço: Alameda Rio Claro, 190 – Bela Vista, São Paulo
Ingressos: R$ 50 (inteira) | R$ 25 (meia)
Entrada gratuita às terças-feiras