Com quase vinte trabalhos produzidos entre 1970 e 2025, a nova individual de José Resende na Galeria Superfície mostra alguns pontos altos da produção do artista – que vão desde os seus trabalhos que jogam com o equilíbrio de forças, de temperaturas e da própria história da arte. Mas o denominador comum, talvez, que fica claro sempre que paro para ver um conjunto mais extenso de trabalhos de Resende é do quanto a sua produção retoma problemas da nossa tradição construtiva para reinventá-los sob a mesma fragilidade e incerteza do que foram (e são) as experiências urbana e moderna brasileiras.
Em trabalhos dos anos 1980, Resende executa um tipo de torneamento do feltro que torna ainda mais forte a indeterminação característica do tecido – que, por ser produzido através da prensagem de fibras, consiste em uma “manta não-tecida”. Veja que o feltro, por definição, é um produto de fibras compactadas e entrelaçadas até formar uma folha contínua, sem necessidade de fio ou costura estrutural. Só que essa continuidade típica dele é, em todas essas obras, interrompida por nós ou dobras produzidas pelo artista, como se também a realidade não fosse capaz de adquirir fluidez no esforço por seguir em frente com tanta naturalidade.