Pintura monumental de glaciar some da Casa Rosada após aprovação de lei que abre regiões glaciais à mineração

Obra de Helmut Ditsch sobre a Patagônia foi retirada sem aviso ao artista; governo alega manutenção, mas historiadores veem padrão de apagamento cultural na Argentina de Milei

Foto: Reprodução

Dias antes da aprovação, em 9 de abril, de uma emenda à lei de proteção dos glaciares argentinos que facilita a mineração nessas regiões, o governo de Javier Milei retirou da Casa Rosada uma pintura monumental que retratava o Glaciar Perito Moreno. A remoção da obra passou longe de ser discreta: “The Triumph of Nature” (2006), do pintor fotorrealista Helmut Ditsch, mede 1,3 por 4 metros e estava exposta no palácio presidencial desde 2012, atravessando governos de diferentes orientações políticas.

Um porta-voz do governo alegou que a obra foi removida “por razões de manutenção” para tratar “danos estruturais”, sem dar mais detalhes. Ditsch, porém, diz não ter sido notificado. “Soube pela imprensa que o governo removeu minha obra, o que não podiam fazer sem me comunicar, pois esse era o acordo do empréstimo”, disse o artista, acrescentando que tentativas de contato com o patrimônio governamental ficaram sem resposta. “Minha primeira reação foi pensar na lei dos glaciares que estava prestes a ser debatida.”

No mesmo dia e no mesmo salão, foi retirado também um retrato de Juan Domingo e Evita Perón, duas figuras que continuam a dividir a sociedade argentina. O governo deu a mesma resposta: “Manutenção.”

Para o historiador Felipe Pigna, um dos mais lidos do país, as ações do governo Milei seguem um padrão histórico perturbador. “Essa ideia de remover pinturas para negar o passado, como se tentasse apagá-lo da história, é um movimento clássico. Aconteceu em 1955 com o peronismo. Aconteceu durante a última ditadura, que chegou a queimar mais de um milhão de livros. Esse tipo de comportamento é típico da extrema-direita”, disse ele.

Não é a primeira vez que o governo atual age sobre o patrimônio simbólico do país. Em março de 2024, o “Salão das Mulheres” da Casa Rosada foi rebatizado de “Salão dos Heróis” e retratos históricos de mulheres foram substituídos por retratos de homens. Em fevereiro deste ano, uma placa em homenagem aos 30 mil desaparecidos da ditadura foi removida da Maison de l’Argentine, em Paris, poucos dias antes do 50º aniversário do golpe de 1976.

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