
À medida que o conflito no Oriente Médio se intensifica, seus efeitos passam a se infiltrar também no funcionamento do mercado de arte. No Golfo Pérsico, galerias, feiras e colecionadores operam sob um regime de instabilidade que afeta desde a circulação de obras até o ritmo das transações, evidenciando a dependência estrutural do circuito em relação à mobilidade internacional.
O conflito desencadeou o fechamento forçado do Estreito de Ormuz para navios cargueiros, com impacto imediato nas rotas de transporte marítimo internacional e, por extensão, na cadeia de circulação de obras de arte na região. Nos últimos meses, galerias com atuação internacional relatam dificuldades no envio e recebimento de obras, diante de rotas logísticas mais restritas, aumento expressivo nos custos de transporte e seguros e maior imprevisibilidade nos prazos. Em alguns casos, entregas foram renegociadas ou adiadas indefinidamente, afetando não apenas o fluxo de vendas, mas também a confiança nas transações, elemento central em um mercado baseado em relações contínuas.
Esse cenário se projeta de forma particularmente visível no calendário de eventos. A Art Basel Qatar, feira inaugural na região, conseguiu acontecer três semanas antes da escalada dos ataques iranianos — mas o mesmo não ocorreu com a Art Dubai. Uma das principais plataformas comerciais do Golfo, a feira teve sua edição de 2026 adiada em cerca de um mês, de abril para maio, em resposta direta às interrupções logísticas associadas ao conflito, incluindo restrições de espaço aéreo e dificuldades no transporte internacional de obras.
Uma feira redesenhada
A edição de 20 anos da Art Dubai, inicialmente concebida em escala ampliada, foi redesenhada como um evento mais compacto, realizado, segundo os organizadores, em “formato adaptado”, com redução significativa no número de galerias participantes. A própria estrutura comercial também foi modificada: em vez do modelo tradicional de cobrança fixa por estandes, os organizadores passaram a adotar um sistema baseado em comissão sobre vendas, numa tentativa de redistribuir os riscos em um contexto de alta incerteza.
A feira acontece entre os dias 14 e 17 de maio, mas sob uma lógica diferente — mais flexível, mais cautelosa e menos dependente de previsibilidade. Em vez de cancelar, a estratégia foi recalibrar: reduzir escala, flexibilizar custos e adaptar o formato a um cenário em que viagens, transporte de obras e presença internacional já não podem ser garantidos com antecedência.
Retomada sob tensão
O paradoxo é que o conflito se aprofunda justamente quando o mercado global dá sinais claros de reaquecimento. As vendas conjuntas de Christie’s, Sotheby’s e Phillips cresceram 64% no primeiro trimestre de 2026, chegando a US$ 1,7 bilhão — o melhor resultado desde 2016, segundo a ArtTactic. No Golfo Pérsico, hoje um dos polos mais estratégicos do circuito internacional, a instabilidade impõe limites concretos a essa retomada. O mercado segue ativo, mas sob tensão, lembrando que mesmo um sistema globalizado e em expansão permanece profundamente vulnerável às condições que estruturam o mundo em que opera.