Pavilhão russo ficará fechado ao público na Bienal de Veneza, segundo o ministro da cultura italiano

Documento de sete páginas enviado a Palazzo Chigi nesta segunda-feira (4) aponta que a Rússia nunca recebeu convite formal da Fundação Bienal

 

A controvérsia em torno do retorno da Rússia à Bienal de Veneza 2026 ganhou um novo e decisivo desdobramento dias antes da abertura oficial do evento, marcada para 9 de maio. O relatório elaborado pelos inspetores enviados pelo Ministério da Cultura (MiC) a Veneza foi encaminhado a Palazzo Chigi na segunda-feira, 4 de maio, para permitir ao governo “as devidas avaliações sobre as solicitações da UE acerca do respeito ao quadro sancionatório contra a Federação Russa”.

O documento traz uma revelação central: a Federação Russa não recebeu da Fundação nenhum convite formal para participar e “não assinou o documento que disciplina o procedimento de participação, assim como outros países titulares de pavilhões”. São os próprios Estados proprietários de um pavilhão — o da Rússia existe desde 1914 e foi restaurado em 2019 — que decidem participar, comunicando isso à Fundação. O Estado russo apresentou um projeto e nomeou um comissário, e o pavilhão consta oficialmente na lista das 100 participações nacionais desta edição.

Apesar disso, o espaço não estará acessível ao público em geral. Em função das sanções vigentes, a Rússia não pôde obter as autorizações necessárias para abrir o pavilhão ao público, enquanto o vernissage, previsto entre 5 e 8 de maio de 2026, é um evento privado, por convite, e portanto não requer a apresentação de registro de manifestação pública.

O relatório não aponta violações graves nem irregularidades suficientes para anular a participação da Rússia, mas evidencia críticas que teriam exigido mais cautela. A Bienal, por sua vez, afirma ter “verificado em todo momento o respeito às sanções” e que “não pode intervir nos projetos, mas verificou, na medida do possível com base nas informações disponíveis, o cumprimento da normativa por parte dos projetos apresentados”.

 

Bienal de Veneza acumula polêmicas ligadas a Rússia e Israel

 

A demissão da júri e o risco de processo

O documento também lança luz sobre a renúncia coletiva da júri internacional, que havia anunciado publicamente que não consideraria para os prêmios países cujos líderes enfrentassem acusações de crimes contra a humanidade no Tribunal Penal Internacional — decisão que afetaria diretamente Rússia e Israel. Segundo o relatório, o artista israelense Belu-Simion Fainaru apresentou uma notificação extrajudicial ameaçando pedir indenização por discriminação. A júri, “contatada e informada não apenas do alcance midiático em detrimento da Bienal, mas também do risco pessoal de exposição a indenizações, não apenas por parte do requerente, mas também da Fundação”, apresentou demissão imediata na tarde de 30 de abril. Diante do impasse, a Fundação adotou uma fórmula inédita: a escolha dos premiados ficará a cargo do público.

 

O contexto político

O embate vinha se intensificando há semanas. O presidente da Fundação Bienal, Pietrangelo Buttafuoco, defendeu a participação russa em nome da vocação universalista da arte e da autonomia da instituição. Em resposta, a Comissão Europeia retirou um financiamento de €2 milhões destinado ao evento. O ministro da Cultura Alessandro Giuli, que já havia pedido a renúncia da representante do governo italiano no conselho da Fundação por falta de transparência no processo de readmissão da Rússia, anunciou que não participará da cerimônia de abertura em protesto.

Com o relatório dos inspetores confirmando que o pavilhão russo permanecerá fechado ao visitante comum, a Bienal de Veneza 2026 se prepara para sua abertura sob tensão geopolítica sem precedentes — mas, ao menos formalmente, dentro dos limites impostos pelas sanções internacionais.