
Roberto Burle Marx via nas plantas muito mais do que elementos ornamentais. Para ele, a vegetação era matéria plástica, com linguagem e estrutura — um organismo vivo em que era possível unir a arte ao espaço e a experiência urbana. É dessa compreensão que parte a exposição “Burle Marx: Plantas em Movimento”, em cartaz no Museu Judaico de São Paulo. Em vez de uma retrospectiva convencional, a mostra propõe um olhar sobre o pensamento do artista a partir de seu repertório vegetal, revelando como espécies, formas e paisagens se tornaram elementos centrais de uma obra que transformou o paisagismo em uma das expressões mais radicais da modernidade brasileira.
A partir de desenhos, fotografias, filmes e documentos do acervo do Instituto Burle Marx, a exposição acompanha o processo pelo qual a natureza se converte em projeto. Croquis, estudos e registros de expedições permitem observar Burle Marx em ação: pesquisando, coletando, desenhando e organizando formas a partir da observação direta dos biomas brasileiros. Seu trabalho consistia em reconhecer a potência estética já presente na natureza e reorganizá-la em composições dinâmicas, sem apagar sua vitalidade própria.
A natureza como linguagem
Antes de se tornar o paisagista que redefiniria a relação entre arte e espaço público no Brasil, Roberto Burle Marx formou-se em pintura. Essa origem nas artes visuais é fundamental para compreender sua prática. Em seus jardins, a vegetação nunca aparece como mero ornamento: ela como cor, volume, textura e ritmo, compondo verdadeiras pinturas em escala territorial.

Essa dimensão artística se evidencia logo na exposição. Ao reunir croquis, estudos e desenhos, “Burle Marx: Plantas em Movimento” revela um aspecto menos conhecido de sua produção, demonstrando a potência artística de seus esboços. Ainda que tenham surgido como etapas preparatórias de projetos paisagísticos, esses trabalhos poderiam ser lidos facilmente como obras individuais, aproximando-se de pinturas e composições abstratas. Neles, já se delineiam as relações entre cor, forma e movimento que mais tarde ganhariam corpo nos jardins.
Segundo Isabela Ono, diretora do Instituto Burle Marx e cocuradora da mostra, essa interseção entre arte e paisagismo está no cerne de sua obra. “Burle Marx pensava sempre na arte como um primeiro compromisso”, afirma. A partir dessa base, desenvolveu uma prática em que a criação estética se articulava a uma dimensão ética, especialmente em seus projetos para espaços públicos.
As obras reunidas na exposição mostram como a natureza funcionava como fonte contínua de invenção. Formas orgânicas, estruturas vegetais e variações cromáticas aparecem transfiguradas em pinturas, desenhos e projetos. Em muitos casos, a referência botânica permanece claramente reconhecível, mesmo quando traduzida em linguagem abstrata. É o caso de composições inspiradas em manguezais, raízes e espécies específicas da flora brasileira, como o pau-jacaré.
Burle Marx buscava compreender a lógica interna da natureza — seus ritmos, contrastes e formas de crescimento. Seu trabalho consistia em organizar suas forças, criando composições que preservam o caráter vivo, mutável e imprevisível da vegetação. Como observa o curador Guilherme Wisnik, essa é uma das razões pelas quais sua obra permanece tão atual: ela entende a arte como algo em permanente transformação, assim como as próprias plantas com as quais trabalhava.
Um legado em movimento
A exposição também evidencia que a obra de Roberto Burle Marx jamais foi resultado de um gesto solitário. Embora sua visão artística fosse singular, sua prática sempre se construiu de forma coletiva, em diálogo com arquitetos, botânicos, paisagistas, jardineiros e inúmeros colaboradores. Essa rede foi fundamental para que ele desenvolvesse, ao longo de sete décadas, uma produção de escala extraordinária, que inclui cerca de dois mil projetos paisagísticos, além de pinturas, joias, esculturas, tapeçarias e painéis.

Em todas essas frentes, Burle Marx manteve como princípio a valorização da natureza brasileira como fonte de conhecimento, invenção e identidade cultural. Suas expedições pelos diferentes biomas do país além de ampliarem seu repertório botânico, também consolidaram uma visão de brasilidade fundada na diversidade ecológica e cultural. Ao incorporar espécies nativas em seus jardins, em um momento em que predominavam modelos importados da arquitetura e urbanismo europeu, ele redefiniu o próprio imaginário paisagístico nacional.
Antecipando até mesmo alguns debates contemporâneos sobre sustentabilidade e preservação ambiental, Burle Marx compreendeu o paisagismo como uma ferramenta de transformação social. Seus projetos buscavam aproximar as pessoas da vegetação, criando vínculos de pertencimento entre a vida urbana e os ecossistemas que a sustentam. Em um país que ainda hoje luta para reconhecer a riqueza de sua biodiversidade, seu trabalho permanece como um convite à observação, ao cuidado e ao pertencimento.