As exposições “Pop Andino”, de La Chola Poblete, e “Réplica”, de Sandra Gamarra Heshiki, dão o pontapé no ciclo de “Histórias latino-americanas”, destaque na programação do Museu de Arte de São Paulo (MASP) em 2026. Considerado uma das instituições mais relevantes da América Latina e conhecido pela sua rica coleção de arte europeia, o museu vem há mais de uma década colocando em xeque esse legado ao reorientar seu olhar para suas próprias fronteiras.

Poblete e Gamarra Heshiki operam em registros distintos, ainda que alinhados na crítica às estruturas que organizam a visualidade. Na mostra “Pop Andino”, a artista argentina constrói uma iconografia marcada por figuras híbridas – corpos racializados, erotizados e, muitas vezes, sacralizados – que reencenam símbolos religiosos e imaginários coloniais a partir de uma perspectiva andina e dissidente. Há uma fricção constante entre devoção e paródia, ornamento e violência, em obras que não estabilizam a imagem, mas a colocam em conflito.
Em “Réplica”, por outro lado, Gamarra Heshiki desloca o debate para o próprio sistema da arte. Suas pinturas e instalações recriam cenas, acervos e dispositivos expositivos que ecoam museus europeus, mas nunca de forma neutra: há sempre um desvio, uma ausência, uma inadequação. Ao operar nesse campo da cópia e da simulação, a artista evidencia que o museu não é uma construção, feita de escolhas, exclusões e hierarquias.

Um projeto que extrapola o museu
O alcance desse movimento vai além das exposições em cartaz no museu. O MASP leva o eixo “Histórias latino-americanas” para a SP-Arte 2026, apresentando obras têxteis e cerâmicas de artistas de diferentes países da região, inserindo esse conjunto de obras em um espaço onde a disputa é, também, econômica e institucional.
Se no museu essas produções operam no campo da narrativa, na feira elas passam a atravessar outra camada: a da circulação, da aquisição e da validação por parte de colecionadores, galerias e agentes do circuito.
Ao apresentar obras têxteis e cerâmicas de diferentes países da região nesse contexto na maior feira de arte da América Latina, o MASP amplia o alcance do projeto e intervém diretamente nas condições em que essas produções são vistas, valorizadas e incorporadas ao circuito, reforçando seu papel como agente político da arte latino-americana nos mecanismos que organizam o sistema da arte contemporânea.