Visitação a afresco de Leonardo da Vinci reabre por apenas cinco semanas

Raramente acessível ao público, a Sala delle Asse, no Castello Sforzesco, reabre por ocasião dos Jogos Olímpicos de Inverno Milano-Cortina 2026

A “Mona Lisa” é uma obra que arrasta multidões para o museu do Louvre, em Paris, há décadas, assim como “A Última Ceia”, pintada diretamente nas paredes da igreja de Santa Maria delle Grazie, em Milão. Ainda que disputadas para serem vistas, os dois trabalhos icônicos de Leonardo Da Vinci raramente ficam indisponíveis. Elas estão a um ingresso e, muitas vezes, a viagens de distância. Mas nem toda produção do renascentista fica exposta assim. É o caso de um afresco monumental de Leonardo da Vinci. 

Raramente acessível ao público, o acesso a Sala delle Asse, no Castello Sforzesco, será reaberto por ocasião dos Jogos Olímpicos de Inverno Milano-Cortina 2026 por apenas cinco semanas. Trata-se de uma das obras mais singulares realizadas por Leonardo durante sua permanência na corte do duque Ludovico Sforza.

Vista da Sala delle Asse, no Castelo Sforzesco, em Milão. foto: Roberto Serra – Iguana Press / Getty Images

Iniciada em 1498 e concebida como um grande trompe-l’œil*, a pintura transforma o teto e as paredes da sala em uma pérgola vegetal, formada por ramos, troncos e folhagens entrelaçadas. Mais que um projeto que reflete sua habilidade de pintura e relação com a cidade de Milão, manifesta o interesse do artista pelo estudo da natureza, da botânica e da relação entre arte e arquitetura.

A obra, no entanto, permaneceu inacabada. Pouco tempo depois de iniciar, da Vinci deixou Milão em meio à invasão francesa e o afresco acabou sendo progressivamente encoberto por camadas de gesso e tinta ao longo dos séculos. Sua redescoberta ocorreu apenas no final do século 19, quando restauros começaram a revelar fragmentos da pintura original. Desde então, a Sala delle Asse tornou-se um dos espaços mais delicados do castelo, submetido a longos e complexos processos de conservação, o que explica por que permanece fechada ou severamente restrita à visitação pública na maior parte do tempo.

A fragilidade do afresco, marcado por lacunas, áreas esmaecidas e uma superfície extremamente sensível, exige intervenções contínuas e controle rigoroso do ambiente. Os restauradores estão usando papel de arroz japonês com água desmineralizada para limpar a superfície de sais e impurezas e, assim, revelar a obra em sua maior potência possível. Por isso, a reabertura anunciada é considerada excepcional. Entre 7 de fevereiro e 14 de março de 2026, período que coincide com os Jogos Olímpicos de Inverno, visitantes poderão acessar a Sala delle Asse e observar a obra de perto, inclusive a partir dos andaimes utilizados pelos restauradores, acompanhando o processo de conservação em andamento.

Detalhe das folhagens pintadas no afresco na Sala delle Asse. foto: Roberto Serra – Iguana Press / Getty Images

A iniciativa integra a estratégia cultural de Milão para os Jogos Olímpicos, usando o evento esportivo como plataforma para destacar seu patrimônio histórico e artístico. Mais do que uma atração turística, a abertura temporária oferece uma oportunidade rara de contato direto com uma obra de Leonardo em estado processual, e não apenas o resultado final, mas também as marcas do tempo, da interrupção histórica e do trabalho contemporâneo de restauro. Após esse período, a Sala delle Asse deverá voltar a ser fechada por cerca de um ano e meio até a conclusão das intervenções previstas.

*trompe-l’œil (do francês “engana o olho”) é uma técnica artística que utiliza perspectiva, realismo e jogo de luz e sombra para criar ilusões de ótica, fazendo superfícies bidimensionais (como paredes) parecerem tridimensionais.

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