Daniel Buren: do mar ao museu, da cor à forma pura

A chegada do artista francês Daniel Buren ao Brasil inscreve uma das práticas mais icônicas da sua arte conceitual em diálogo direto com a paisagem urbana carioca e uma das…

A chegada do artista francês Daniel Buren ao Brasil inscreve uma das práticas mais icônicas da sua arte conceitual em diálogo direto com a paisagem urbana carioca e uma das mais reconhecidas no mundo. Aos 87 anos, Buren é reconhecido internacionalmente pela exploração das listras verticais como ferramenta visual estética. Foi essa abordagem que navegou em ação realizada na Baía de Guanabara nesta última semana, como parte do projeto “Voile/Toile – Toile/Voile (Vela/Tela – Tela/Vela)”.

Na quinta-feira, 22 de janeiro, onze veleiros da classe Optimist partiram da Marina da Glória, às 15h, em uma regata-performance inédita no Brasil. As velas, estampadas com as listras caracteristicamente concebias por Buren desde a década de 1970, transformaram o percurso marítimo entre a marina e a Praia do Flamengo numa “pintura em movimento” sobre a Baía, onde o vento, a luz e o deslocamento das embarcações se tornaram elementos constitutivos da obra, e não meramente um contexto visual.

Regata performance de “Voile/Toile – Toile/Voile” no Rio de Janeiro. Foto: Guilherme Monteiro.

O deslocamento da obra para o mar é, justamente, parte central da proposta de “Voile/Toile – Toile/Voile”. Criada originalmente em Berlim em 1975, essa série de Buren substitui a tela estática pela vela em movimento, o que desloca a experiência da pintura tradicional para um ambiente aberto, público e imprevisível, como o mar. Essa transposição rompe com a noção clássica de arte e reitera uma lógica conceitual que o artista desenvolve há décadas: a arte não apenas para refletir um espaço, mas ativar tal espaço como componente da obra, como tela, tinta, pincelada e personagem.

O caráter visual da performance com a presença de suas típicas listras coloridas que flutuam no ambiente marítimo atua como elemento de ruptura ao criar uma temporalidade própria em que arte, natureza e cidade se encontram. Diferentemente de um evento esportivo ou de uma simples exposição ao ar livre, a regata-performance sugere que o público perceba o entorno, o mar, a cidade, a orla, como partes dinâmicas e inseparáveis da obra.

O projeto, realizado pelo Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio) em parceria com a Galeria Nara Roesler, vai do mar para terra firme. A partir do dia 28 de janeiro, as velas utilizadas na regata serão expostas no foyer do MAM Rio, dispostas em estruturas que seguem a ordem de chegada na regata, no estabelecimento de um vínculo direto entre a performance e a exposição. Essa continuidade da ação reforça a tensão metodológica de Buren entre obra e documento: as velas deixam de ser suportes funcionais para se tornarem objetos artísticos, em um registro formal do percurso e do acontecimento vivido no mar. É a arte que também escapa, mas permanece.

Esse duplo momento, a performance na Baía de Guanabara e a exposição, evidencia o caráter experimental e situacional do trabalho de Buren: uma arte que se inventa no encontro com o lugar, com contingências climáticas e com a presença do público como mediador do sentido. Ao ampliar o território da obra para além dos muros clássicos do museu, o projeto retoma questões centrais da arte conceitual e da arte in situ.

Buren entrou para a história da arte como um artista que buscou e alcançou o “grau zero”, termo relacionado à literatura, mas que nas artes plásticas se aplica à redução de formas a elementos geométricos coloridos, próximo a cor pura, uma não imagem. A proposta é de desgastar a obra até a sua mais pura essência e assim escapar de sentimentos ou afetos. O que se vê é o cerne da arte conceitual no encontro com a iconoclastia. Suas ações foram celebradas nas décadas de 60 em paralelo ao movimento minimalista e provocam ondas até hoje.

Regata em Minneapolis, 2018.

O projeto “Voile/Toile – Toile/Voile (Vela/Tela – Tela/Vela)” que aporta pela primeira vez no Brasil já passou por grandes cidades e suas vias marítimas como Berlim, Genebra, Lucerna, Miami e Minneapolis, em uma composição constante com a paisagem e o público. É a arte que navega e aporta.