O vento e o código de Boris Acket

O holandês Boris Acket cria site-specifics em que movimento, luz e som criam uma experiência sensorial que flerta com a natureza e é calcada na tecnologia

Originalmente compositor, Boris Acket entendeu o próprio ritmo para manifestar uma poética em instalações sensoriais e cinéticas. Suas obras trazem movimento e sonoridades, reflexos e opacidade, no balanço conduzido pela máquina, mas para a sensorialidade do corpo humano. O resultado é uma experiência que flerta com a natureza enquanto calcada na tecnologia. 

Nascido em 1988, na Holanda, vindo de uma geração que presenciou a guinada de um mundo analógico para o hiperconectado, o mergulho na arte começou pela bateria, o instrumento, e encontrou palco na música eletrônica. Seu interesse nasceu do vácuo que os espaços proporcionam e na colaboração com músicos de vários estilos. Ao se envolver no cenário da música eletrônica, passou a compor cenários e peças audiovisuais para suas apresentações, num convite para levar o público a um outro grau de presença. As instalações em larga escala viraram assunto para fora das pistas. Era o primeiro passo em direção às instalações que hoje o elevam na cena da arte contemporânea. 

Einder / Wind, Boris Acket, 2024

Sua trajetória estética e conceitual vem desafiando as fronteiras entre som, luz, movimento, espaço e tecnologia. Acket evoluiu sua prática para uma investigação artística que dialoga com música, instalações imersivas, cenografias e ambientes sensoriais que questionam nossa percepção do tempo e do ambiente natural. Sua obra propõe experiências significativas que redefinem a relação do público com a obra e o espaço. 

Seu eixo poético transita entre o controle e a rendição, entre o que é previsível e o que escapa, e reside na dialética entre estrutura tecnológica e respostas sensoriais humanas, tema recorrente em projetos como “Einder II”. Esta instalação audiovisual de grande escala utiliza tecidos em movimento, luz e som espacial para emular padrões naturais como ondulações de água e sugerir mudanças climáticas. Acket e seus colaboradores descrevem a obra em seu portfólio como uma peça que “leva as pessoas a refletirem sobre as formas como a humanidade tenta controlar a natureza”, destacando como cada movimento se comporta de maneira ligeiramente diferente. O tecido ganha vida, e na vida o processo é vivo e imprevisível. 

Einder II, Boris Acket, 2021

A recepção crítica de peças como “Duration”, apresentada no NXT Museum, em Amsterdã, reforça essa leitura sensorial e conceitual. A descrição oficial da obra destaca que Acket “funde som, luz e movimento para investigar como tais elementos podem proporcionar encontros ritualísticos e espaços de refúgio”, apontando para a ambição de transcender categorias tradicionais entre performance e exposição. E, mais do que isso, entender como é possível experienciar o tempo. 

Eventos recentes demonstram a amplitude da recepção pública e crítica de sua obra. Em Berlim, na mostra “The Dark Rooms Vertical”, de 2024, Acket ocupou um prédio de 120 anos para criar site-specifics. O barulho era de vento, mas 49 motores estavam ativados para proporcionar tal efeito. A crítica cultural alemã relatou que o artista criou ambientes em que “tempestades imponentes e mares furiosos são trazidos à vida através de instalações que simulam fenômenos naturais com motores e luzes, convidando os visitantes a se posicionarem num espaço que reage constantemente a eles”. 

The Bird Of A Thousand Voices, Boris Acket, 2024

Espaços icônicos da arte contemporânea também foram palco de suas intervenções. Em 2024 e 2025, sua obra “Spaces Between Lines”, na Kunsthal Rotterdam, dialogou diretamente com a arquitetura pioneira do arquiteto e urbanista holandês, Rem Koolhaas. Segundo a curadoria do museu, Acket concentrou-se nas “zonas intermediárias entre interior e exterior, usando tecido, ar e luz para tornar visíveis dimensões normalmente intangíveis de um edifício”. Foi a primeira vez que um artista desenvolveu uma obra que podia ser vista tanto dentro quanto fora da Kunsthal.

Além de obras solo, Acket desenvolve colaborações com artistas e compositores de múltiplos campos, incluindo o músico holandês Joep Beving e o ecologista acústico norte-americano Gordon Hempton, ampliando as perspectivas sensoriais e ecológicas de suas instalações. Essa circulação colaborativa é parte do que permite que seu trabalho dialogue com questões contemporâneas sobre natureza, tecnologia e subjetividade, ultrapassando a lógica de mero estímulo sensorial para provocar reflexão crítica.

Sunbeam, Captured, Boris Acket, 2023

Sua relevância nos dias de hoje reside justamente nessa capacidade de provocar experiências que confrontam espectadores com fenômenos naturais, tecnológicos e sensoriais em espaços que desafiam a expectativa tradicional de obra de arte, seja em museus, festivais ou instalações site-specific. Acket não apenas cria trabalhos técnicos, mas ambientes que convidam à reflexão e à consciência sensorial, posicionando-o como um dos artistas mais instigantes da arte contemporânea por tratar dos nossos modos de perceber e habitar o mundo em tempos de intensa mediação tecnológica e ecológica. É a manifestação artística de um tempo em que tecnologia é incorporada de forma explícita, mas, no caso, para traduzir em movimentos controlados e que ainda assim escapam pela potência da natureza e da arte em constante transformação.

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