Uma edição de soluções democráticas — se é que a Biennale entendeu o que é isso

Na coluna "Plano", Gabriel San Martin escreve um texto crítico quinzenalmente.

Parece ironia o fato de que a 61ª Bienal de Veneza tenha o título "In Minor Keys" (Em Tons Menores). Provavelmente quando Koyo Kouoh escolheu o nome, ela se referia a uma exposição de frequências baixas, beleza discreta ou de um tipo de arte que se faz nas dobras do mundo. Mas a edição que ela bolou como um convite ao repouso abriu em 9 de maio de 2026 com polícia de choque na porta do Arsenale.

A verdade é que a bienal não parece ter se preparado minimamente para vestir a saia justa em que está a geopolítica global. Só que, como qualquer crise institucional desse tipo, o problema veio em doses. Isso porque já havia bronca na decisão da Fundação Bienal de permitir o retorno da Rússia ao Giardini, após duas edições de ausência: em 2022, os próprios artistas russos se retiraram em protesto à invasão da Ucrânia; em 2024, o pavilhão foi emprestado à Bolívia como se fosse um apartamento vago. Mas a volta, negociada em silêncio desde 2025 entre a direção da Bienal e a comissária russa Anastasia Karneeva, veio acompanhada de um arranjo jurídico que revelou muito bem o grau de contorcionismo institucional que estava em jogo. Afinal, o pavilhão abriria só durante os quatro dias de prévia para imprensa, ficaria fechado ao público pelo resto dos seis meses e vídeos seriam projetados nas janelas para simular uma presença que não tinha o menor sentido.

Mas a Comissão Europeia, é claro, não achou graça e rapidamente notificou a Bienal da sua intenção de cortar cerca de 2 milhões de euros em financiamento. Disso, vinte e dois ministros de cultura assinaram carta coletiva. Finlândia e Letônia anunciaram boicote às cerimônias oficiais. Na Itália, o ministro da cultura Alessandro Giuli disse que a decisão tinha sido tomada "inteiramente pela Bienal" — fórmula elegante para dizer que não queria responsabilidade pelo problema — e enviou inspetores para apurar o que havia acontecido. O relatório foi publicado na íntegra, sete páginas...

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