TV Garden revisitada: a eternidade vazia do Éden tecnológico

Na coluna “Vídeo”, o pesquisador Régis Alves comenta uma obra do acervo da Associação Cultural Videobrasil para o AQA

A relação entre arte e tecnologia atravessa toda a história da Videobrasil. Desde os anos 1980, em que os videotapes despontaram como novo meio técnico na arte contemporânea, até os 1990 e 2000, quando as obras em multimídia e internet redefiniram os festivais – cujo próprio nome incorporou a alcunha “arte eletrônica” –, seguindo, finalmente, às últimas bienais, em que a onipresença da tecnologia já estava no cotidiano. Um exemplo é a obra “BUGs”, de Vitória Cribb, que participa da atual edição do Ciclo Curatorial da Videobrasil e participou da 22ª Bienal Videobrasil (2023). No vídeo, disponível virtualmente até 2 de agosto, as falhas e erros inesperados das máquinas digitais são aludidas pelo corpo virtual de um besouro, em que o excesso de corpos e máquinas contrastam com a assepsia da interface digital e da existência online.

Outro exemplo é a obra “The Trace of the Box - Technicalized Good People” (2022, vídeo, 5’40”), que participou da mesma Bienal e analisaremos aqui. Se Cribb trabalhara antes com o que há de “uncanny” na relação entre homem, máquina e animal, aqui os coreanos do coletivo Moojin Brothers trabalham com a estranheza no interior dessas relações, agora produzida pela utopia tecnológica de suprimir o devir e a decomposição aliada à utopia estética de congelamento do tempo na imagem.

A obra é uma releitura em vídeo da importante instalação de Nam June Paik, “TV Garden” (1974), exibida no 11º Festival da Videobrasil (1996), em que trinta monitores espalhados num jardim apresentavam Global Groove, filmado também pelo artista. No vídeo do coletivo, galinhas virtuais são adicionadas às plantas e telas, isoladas de outras espécies e isentas de evolução, reprodução, criação e decomposição, inventando um ambiente em que o ecossistema é criado e mantido pela tecnologia. Não foram poucos os que pensaram a obra de Paik sob a perspectiva da aldeia global de McLuhan, uma interconectividade planetária que abarca também as relações interespécies como modelo de convivência tecno-natural, antecipando um tema hoje frequente na esteira da crise ecológica e dos debates ao redor do antropoceno. Já o vídeo de Moojin Brothers, no entanto, abandona todo o otimismo quanto à globalização e ao potencial de integração…

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