
Estela Sokol diz que escuta música o dia inteiro. Trabalhando, caminhando, recebendo pessoas no ateliê. E que seu gosto mudou pouco desde os 13 anos, quando um irmão mais velho, jornalista musical e ex-diretor da MTV, calibrou definitivamente sua formação sonora. Mas a relação de Sokol com a música vai além do fundo sonoro: ela usa canções como títulos. E os títulos, na sua obra, encaminham bem as coisas.
Os dois casos mais citados pela artista estão separados por uma década e apontam para extremos opostos do espectro. Em 2016, na exposição “Naturezas Mortas”, uma instalação de piso com espuma, mármore, parafina e diferentes materiais industriais foi batizada de “White Light/White Heat” — o álbum de 1968 do Velvet Underground, um dos registros mais agressivos do rock experimental americano. O nome chegou depois do trabalho pronto, como costuma acontecer com Sokol. “Fiz o trabalho, normalmente o nome vem depois”, ela conta. A associação fez sentido porque a obra era sobre o branco — não um branco, mas vários: materiais industriais nomeados como brancos que, por justaposição, deixam de ser brancos, virando cinza, amarelo, creme. Semitons, não tons.
White Light/White Heat

Em 2025, a exposição na Galeria Galatéia, em Salvador, ganhou o nome de “Chuva de Prata”. Sokol conta que recebeu o convite para inaugurar um espaço na Rua Chile, a primeira rua comercial do Brasil, num prédio com fachada de vidro. “Uma paulista com nome de música em inglês, assim, realmente não seria por aí.” O nome veio de uma canção brasileira e carrega o que ela chama de intuição do impossível: “Chuva de prata a gente sabe que não existe. Mas você intui que eu estou falando de alguma coisa que vai para um caminho meio mágico.” A solução para a mudança de luz que o título evocava era analógica: abrir e fechar a porta
A playlist que Sokol organizou para o AQA segue a mesma lógica das suas exposições. Ela se esforçou com a ordem das músicas, pensando na passagem entre as faixas como quem monta um espaço. “Nada ali é aleatório, está contando uma história.” Começa no ska e no reggae jamaicano clássico, atravessa o glam de T. Rex, mergulha no underground nova-iorquino do Velvet Underground e de Lou Reed, e chega a Gal Costa quase no final. As duas únicas músicas em português da lista são as duas que dão título a obras suas — posicionadas nas faixas 26 e 31, depois de uma longa travessia. A playlist chega nelas como quem chega a uma conclusão que só faz sentido por tudo o que veio antes. “A primeira música é tipo uma reza, um abrir alas. Tipo uma Clementina, uma Maria Betânia.”.

Para Sokol, disco e exposição são a mesma coisa. “Um começo, um meio, um fim. É uma evolução em relação ao anterior.” A cor, na sua obra, nunca é entregue direta: é sempre por relação, por camada, por esconderijo. “Você sempre vê ela por relação, ou porque eu escondo ela atrás, ou porque ela vai mudar em relação à luz do dia.” Um punk escondidinho, ela resume, rindo.