Carolina Caycedo: Confluências

Na coluna "Engana-olho", André Torres escreve um texto crítico quinzenalmente

O título da exposição, Confluências, também contribui para a atmosfera aquosa que perpassa o percurso expositivo. Na primeira sala, encontramos o trabalho que partilha do mesmo nome. É uma instalação composta por duas paredes curvas formadas pela junção de tecidos de camisas, faixas e bandeiras de movimentos sociais, que convergem para um núcleo vazio no qual o público passeia, colhendo as reivindicações que enunciam em suas estampas. Este trabalho, resulta de uma vivência da artista com movimentos sociais, durante a Cúpula dos Povos, na COP 30. O movimento condicionado pela estrutura é convergente, mas não há diferenças entre as correntes ideológicas que enunciam as reivindicações. Há especificidades nas lutas, reconhece-se, mas no fundo, demandam os mesmo objetivos: a distribuição justa e o cuidado com a terra e as águas.

As duas paredes que dividem o espaço, por sua vez, estão cobertas por imagens aéreas. De um lado, os tons terrosos do território de Brumadinho devastado pelos efeitos da mineração. Do outro, imperam os azuis cristalinos do renascimento de um rio. Somos levados a perceber o quanto a dimensão instalativa das obras se confundem com soluções expográficas. A própria mesa, que sustenta o Livro rio serpente (2017) repete a forma sinuosa da publicação quando aberta. Caycedo demonstra certa sofisticação na formalização de seus trabalhos que recorrentemente nascem de encontros com o ativismo político-ecológico.

Como resultado, nossa percepção se encontra envolvida por essas imagens que reafirmam, mais uma vez, as relações entre arte e política, tópica que tem se mostrado recorrente, em especial, na programação deste ano do Masp. É inegável que tal chave de leitura, baseada na articulação arte & política tem se estabelecido nas tentativas de sistematização da produção lationamericana do modernismo ao agora. O próprio museu reafirma essa leitura. Mas a estetização das lutas sociais não seria também uma forma de fetichizá-las, conformando o ativismo aos meios e códigos de circulação de objetos artísticos?

Fato é que os trabalhos menos sedutores pela sua conformação visual acabam recolhendo-se em certa timidez, entregando-se a olhares rápidos. Isso se deve, em parte, ao recurso à certas estratégias conceituais já estabelecidas e um tanto desgastadas, seja pela apropriação de imagens que manifestam...

Associação Obrigatória

Você precisa ser associado para ter acesso a este conteúdo.

Ver os níveis de associação

Já é assinante? Acesse aqui