Pesquisadores decifram inscrição em persa antigo no Theatro Municipal do Rio após 117 anos

Pesquisadores da UFRJ e da UERJ identificaram no Salão Assyrio uma saudação ao rei aquemênida Artaxerxes gravada em cuneiforme, ignorada desde a inauguração do teatro em 1909

Foto: Matheus Treuk/Divulgação

O Salão Assyrio do Theatro Municipal do Rio guarda um segredo desde 1909. No painel central do espaço, coberto de cerâmica esmaltada e mosaicos, uma frase em cuneiforme decorava a parede sem que ninguém soubesse o que dizia. Passou mais de um século até que alguém parasse para perguntar.

Foi numa visita casual em 2025 que o professor Alex Mazzanti Júnior, da UFRJ, reconheceu no texto os traços do persa antigo. Ele chamou Matheus Treuk, arqueólogo da UERJ especializado em Pérsia Aquemênida, e juntos decifraram a inscrição: uma saudação ao rei Artaxerxes, soberano da antiga Pérsia no século 5 a.C. “Do Apadana de Artaxerxes, grande rei, rei dos reis, filho do rei Dario”, diz o texto, gravado acima de um altar de fogo entre um guardião com lança e a figura do próprio rei em gesto de oferenda.

Foto: Matheus Treuk/Divulgação

O salão foi criado entre 1905 e 1909 pela empresa francesa Grès Muller, a mesma que fez as balaustradas de cerâmica da Torre Eiffel. A decoração bebeu de artefatos persas expostos no Louvre e em pavilhões da Exposição Universal de 1889, mas não copiou nenhuma fonte específica: misturou referências de Susa, Persépolis e Naqsh-i. Formam, assim, uma composição própria e erudita, da qual o significado ainda está sendo desvendado.

A descoberta também ressuscita uma polêmica antiga. Já na inauguração do teatro, em 1909, cronistas questionavam se o espaço não seria mais persa do que assírio. A pesquisa foi publicada na SciELO e os autores defendem que o Salão Assyrio merece lugar de destaque nos estudos sobre orientalismo e recepção da Antiguidade no Brasil.