Há uma ironia bonita no fato de que Luísa Cunha só decidiu ser artista depois de passar a vida inteira estudando línguas. Nascida em Lisboa em 1949, formou-se em Filologia Germânica e seguiu carreira no magistério a partir dos anos 1970 – um caminho que não costuma desembocar em salas de museu. Só que, aos 37 anos, ela resolveu fazer um curso de escultura no Ar.Co, em Lisboa. Concluiu em 1994 e, ali, nasceu a artista que se tornaria, segundo o galerista que a representou por décadas, uma das que mais abriu caminhos para o som como linguagem dentro da arte contemporânea portuguesa.
Porque era isso, afinal, que Cunha fazia: som. Não instalações sonoras no sentido decorativo do termo, mas frases curtas, quase em loop, que ainda enchem galerias inteiras. Sua obra mais citada, “Do What You Have to Do” [Faça o que você tem a fazer], de 1994, é composta por duas caixas de som suspensas repetindo variações sutis da mesma frase que funcionava, portanto, ao mesmo tempo como afirmação de autoridade e gesto de resistência...