Maior retrospectiva de Vik Muniz o celebra como fotógrafo agricultor

Exposição no MAC Bahia reúne mais de 200 obras, algumas inéditas no país, para criar linha do tempo sobre a trajetória do artista

O Museu de Arte Contemporânea da Bahia (MAC Bahia) recebe “A Olho Nu”, a maior retrospectiva da carreira de Vik Muniz. Em cartaz até 29 de março, a mostra traça uma linha do tempo e contempla 208 obras de diferentes períodos do artistas para mostrar como sua trajetória se relaciona com o olhar para o processo e não necessariamente para a imagem.

“É a maior exposição de Vik, e o grande diferencial que ele mesmo diz é, pela primeira vez, colocar a produção escultórica com as fotografias juntas”, afirmou o curador da mostra, Daniel Rangel.

O ARTEQUEACONTECE esteve em Salvador para ver a exposição de perto e conversar com Daniel. Ele falou como Vik Muniz é um fotógrafo agricultor e não caçador.  “Enquanto a fotografia do caçador usa uma câmera como uma espingarda, o fotógrafo agricultor usa a câmera mais para formalizar uma ideia que tem a partir da construção de uma imagem”, refletiu.

“Vik Muniz também tem a Bahia como um local de residência dele. Esse foi outro motivo de a gente ter trazido a exposição para cá, nesse período, porque esse é quando o Vik mora aqui em Salvador. Ele mora em Salvador todos os anos, de dezembro até fevereiro, já há 20 anos. É uma pessoa que tem uma relação com a cidade”, continuou o curador.

Essa relação com a cidade se faz presente na série “Sugar” ou “Crianças de açúcar” (1996). Além dela, está presente outra série, “Relicário” (1989–2025), apresentada pela primeira vez desde 2014 e marco da sua transição do objeto para a fotografia. A intenção da exposição é traçar uma linha do tempo da carreira do artista e entender a relação entre esculturas e fotografias, e como a câmera permitiu uma liberdade para construir imagens com massa, volume e cenas pensadas, em um novo processo de criação. Não à toa, a mostra, que apresenta 37 séries do artista, conta com 37 textos. É uma escolha, como diz o curador, despir o artista em seu modo de criar.

Mas não só de obras consagradas se faz essa retrospectiva. Três nunca exibidas no país estão lá. São elas: “Oklahoma”, “Menino 2” e “Neurônios 2”, exibidas apenas em exposição de Nova York, em 2022, e recentemente no Instituto Ricardo Brennand.

Confira abaixo a entrevista com o curador de “A Olho Nu”, Daniel Rangel, sobre a retrospectiva de Vik Muniz.

A série “Relicário”, de Vik Muniz, não é representada desde 2014. Como vocês abordam a trajetória dele? E por que isso representa tanto o artista agora? 

Na verdade, a gente está apresentando 37 séries na exposição. São todas as séries que Vik fez utilizando o procedimento de objetos, de montagem, que chamo de fotografia do agricultor, que é o contrário da fotografia do caçador. Enquanto a fotografia do caçador usa uma câmera como uma espingarda, o fotógrafo agricultor usa a câmera mais para formalizar uma ideia que tem a partir da construção de uma imagem. Vik é um exemplo de fotógrafo agricultor. E eu peguei justamente essa tradição, que para mim é a tradição da fotografia contemporânea, que a fotografia deixa de ser a máquina e passa a ser a ideia. A gente utilizou isso como o norte de toda exposição.

“Sugar” talvez seja a mais importante, porque é a primeira que dá projeção para ele. Quando ele fez era totalmente desconhecido, morava em Nova Iorque. E, quando ele mostrou essa série numa galeria em Nova Iorque, o curador do MoMA viu e comprou a série. Ali a carreira dele muda. Então, ela se torna uma série muito importante historicamente, nesse sentido. E, para a Bahia, também tem um sentido muito especial, pela cultura do açúcar.

Como a gente pode entender essa relação das esculturas com as fotografias?

A fotografia de Vik é uma escultura que desmancha. E as esculturas que apresenta são esculturas que resolve não desmanchar, mas também não fotografar. Ele começa na arte fazendo esses objetos, essas assemblages mesmo. A discussão dele não é sobre a imagem, porque a imagem já está dada. A gente não vai discutir o que é a Mona Lisa a partir da obra dele. A gente vai descobrir se é a Mona Lisa ou não é a Mona Lisa que está apresentada. Ele diz que trabalha muito sobre as imagens já conhecidas, porque não quer discutir sobre o que aquela imagem fala.

Ele quer discutir o processo, a parte artística, a elaboração, a técnica, como fez o material, isso, aquilo, a vida daquelas pessoas, a história daquelas pessoa. Ele acaba se envolvendo na vida dessas pessoas que retrata e, quando vende as obras, dá parte do recurso para elas. 

Ele dá um retorno? 

Todas as pessoas que estão ali retratadas mudaram a vida a partir desses retratos. As crianças de açúcar, todas fizeram até a universidade, com a venda dessas fotos. Os meninos, as pessoas todas, nenhum mais trabalha em lixão. Mas, mais do que isso, autoestima. A pessoa se coloca em outro local. Virar uma obra de arte de Vik Muniz é para poucos.

Ele é filho de um garçom do Ceará, que vai trabalhar em São Paulo. Tem um filho que tem um sonho de ser artista. O filho vai para os Estados Unidos, e consegue vencer na vida. E isso daí, às vezes, incomoda muitas pessoas. Você vê o sistema de arte como, às vezes, trata isso. E Vik é tão genial que literalmente caminha a par disso. Ele é aquele artista que não está na Bienal. 

Ele vai construindo o circuito dele. E que, às vezes, é maior do que o circuito tão exclusivista que o meio da arte tenta criar para si mesmo. Lina que criticava muito isso, de que a arte, às vezes, fica fazendo arte só para você mesmo ali, para aquele próprio grupo ali, de se auto-chancelar. E Vik não, ele está querendo que mais gente veja a arte dele. 

O nome da mostra “A Olho Nu” amarra muita coisa que você falou, de como o Vik é, de como expressa as coisas, de como ele vê o mundo, inclusive. 

A exposição “A Olho Nu” busca, de certa forma, deixar o artista despido mesmo. Porque é a primeira exposição de Vik na qual tem uma linha do tempo, por exemplo, da trajetória dele. Uma exposição que tem esse cuidado. Está explicado como foi feita cada série, como é o processo. Então é uma exposição muito generosa nesse sentido de deixar realmente ver além de um Vik conhecido. É uma exposição que precisa de tempo. Quando vê várias séries dele juntas, você reflete sobre o quanto ele fez. Tem uma vontade de revelar o artista, do começo da trajetória até o trabalho mais recente.

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