
Valie Export, uma das vozes mais radicais da arte feminista europeia do século 20, morreu nesta quinta-feira em Viena, aos 85 anos. O anúncio foi feito pela própria fundação da artista no mesmo dia.
Nascida Waltraud Lehner em 1940, em Linz, Export adotou o pseudônimo aos 27 anos, escolhendo o primeiro nome a partir de um apelido de infância e o sobrenome inspirado numa marca de cigarros. A decisão carregava um gesto político claro: recusar os nomes do pai e do ex-marido.
Sua trajetória é marcada por performances que perturbaram profundamente a Áustria e a Alemanha dos anos 1960. A mais célebre delas, “Tapp und Tastkino” (Cinema de Toque, 1968), consistia em prender ao corpo um pequeno palco teatral e convidar transeuntes nas ruas de Viena a tocar seus seios através de uma cortina. Enquanto isso, seu colega Peter Weibel recrutava o público com um megafone e cronometrava cada ação com um cronômetro. O que poderia soar como provocação gratuita era, na leitura da artista, uma exposição precisa dos mecanismos de objetificação do corpo feminino.
Em 1980, Export e Maria Lassnig tornaram-se as primeiras mulheres a ocupar o pavilhão austríaco na Bienal de Veneza. A obra central da mostra, “Geburtenbett” (Cama de Parto), apresentava um abdômen feminino desproporcional com pernas dobradas sobre um colchão, luzes de néon vermelhas irradiando da vulva e uma televisão transmitindo uma missa católica onde estaria a cabeça. Religião, maternidade e corpo feminino reunidos numa única e desconcertante imagem.
Sua obra atravessou décadas e linguagens. Participou das edições de 1977 e 2007 da Documenta, em Kassel, e foi professora de multimídia e performance na Academia de Artes Midiáticas de Colônia entre 1995 e 2005. No cinema, seu longa “The Practice of Love” (1985) foi indicado ao Urso de Ouro no Festival de Berlim. Em 2005, Marina Abramović reencencenou sua performance “Genital Panic” como uma das sete ações fundamentais do século 20, no Guggenheim de Nova York, apresentando Export a uma nova geração.
“Valie foi uma das artistas feministas mais visionárias a emergir na Europa na segunda metade do século 20”, disse seu galerista Thaddaeus Ropac. “Sua obra continua sendo de grande urgência.”