Iêmen enfrenta saques, bombardeios e silêncio internacional na tentativa de preservar seu patrimônio cultural

Após mais de uma década de guerra civil, o país vê sítios históricos desprotegidos, museus danificados e um orçamento mensal de menos de mil dólares para seu departamento de museus

Foto: © Brent E. Huffman

O Iêmen é, segundo o cineasta e ativista de patrimônio Brent Huffman, “a tempestade perfeita de ameaças à herança cultural”. Isolamento, falta de recursos, saques, guerra, mudanças climáticas e ausência de atenção internacional se somam num país que, apesar de tudo, tenta preservar o que resta de uma das civilizações mais antigas do mundo.

Desde o início da guerra civil, em 2014, sítios arqueológicos ficaram sem proteção, peças foram contrabandeadas para o exterior e monumentos históricos foram atingidos por ataques aéreos. Em setembro de 2025, bombardeios israelenses em resposta ao apoio houthi a Gaza danificaram o Museu Nacional e uma mesquita do século 7 em Sanaa, capital situada num sítio Patrimônio Mundial da Unesco habitado há mais de 2.500 anos. O dano ainda não havia sido reportado em nenhum veículo de língua inglesa até a publicação desta reportagem.

Mutte Ahmed Qasem Dammaj, recém-nomeado ministro da cultura do governo internacionalmente reconhecido no sul do país, tenta negociar acordos de repatriação de artefatos com Alemanha, EUA, Suíça e França. O desafio é duplo: convencer seu próprio governo de que esses acordos são prioridade e garantir que os museus yemenitas estejam em condições de receber as peças. O orçamento mensal do departamento de museus do ministério é de menos de mil dólares.

No terreno, são frequentemente mulheres que sustentam o trabalho de preservação. Após programas da Unesco no início dos anos 2020 voltados à equidade de gênero no setor, profissionais como a arqueóloga Samira Al-Qabati e a engenheira Noha Awn passaram a liderar esforços de restauração em campo, enfrentando checkpoints militares e condições extremas. Awn percorreu 260 quilômetros para participar de uma conferência de patrimônio em Taiz em abril, única representante do norte do país. “A dor dos iemenitas não está apenas na escala da destruição, mas na supressão da verdade e na incapacidade de transmitir a realidade iemenita ao mundo”, disse ela.

A situação é agravada pela retirada de organismos internacionais. O USAID, que enviou 620 milhões de dólares ao Iêmen em 2024, foi desmantelado pelo governo Trump em 2025. A Unesco, principal agência de patrimônio no país, teve dez funcionários detidos pelos houthis no norte em dezembro, tornando suas operações na região “inviáveis”, segundo a própria agência.