
A visão humanista e lúdica de Frank Gehry, morto recentemente, continua presente em suas construções — das mais monumentais às mais discretas. Um exemplo pouco conhecido de sua obra, a Benson House, erguida nas colinas de Calabasas, na Califórnia, está à venda por US$ 1,7 milhão, prestes a trocar de mãos apenas pela segunda vez em 45 anos.
A construção, concluída em 1981, remonta ao período fundamental da carreira de Gehry em Los Angeles e é um exemplo característico de seu estilo desconstrutivista. O arquiteto projetou a casa para a família de Robert “Bob” Benson, professor emérito da Loyola Law School, que havia integrado o comitê responsável por escolher Gehry para desenhar o campus da instituição em 1978.
Sem orçamento robusto, mas com liberdade criativa total concedida por Benson, Gehry criou duas estruturas independentes conectadas por escadas — descritas pela crítica Patricia C. Phillips, em 1988, como algo semelhante a vértebras. O volume maior e de tom marrom abriga os quartos; o menor, verde, reúne os espaços comuns. Ambos são revestidos por telhas asfálticas, material que encantou Gehry durante passagens pelos bairros operários do Queens, em Nova York. O conjunto ocupa 0,14 hectare de terreno inclinado, disposição que o próprio arquiteto comparou a uma escultura japonesa em que duas pedras quase se tocam.
Segundo Phillips, a Benson House representa um projeto de transição na trajetória de Gehry, entre sua abordagem inicial de colagem acumulativa e seu interesse crescente pela forma escultórica e pelo espaço arquitetônico como assemblage. O Wayzata Guest House (1983–86) partiria de ideias semelhantes.
Com 1.719 pés quadrados (cerca de 160 metros quadrados), dois quartos, dois banheiros e um lavabo, a casa está muito distante da escala dos museus e salas de concerto que mais tarde consagrariam Gehry internacionalmente. A imobiliária Beyond Shelter, responsável pela venda, relata que o próprio arquiteto chegou a chamar a Benson House de um de seus projetos favoritos, justamente pelo desafio de um orçamento tão apertado.
Como em outras residências do início de sua carreira, Gehry recorreu a materiais tradicionalmente industriais — como piso de concreto — em um contexto doméstico. Vigas expostas reforçam o clima arejado dos ambientes, com paredes brancas iluminadas por claraboias que valorizam tanto o interior quanto as vistas do Vale de San Fernando, visíveis de cada janela. Segundo a prefeitura de Calabasas, dois elementos do projeto original nunca chegaram a ser construídos: as garagens e o terraço no teto — ausência que talvez contribua para a leveza do conjunto, como se as duas construções flutuassem sobre um vão de espaço vazio.
De acordo com registros, Benson pagou originalmente US$ 120 mil pela construção da casa, que foi revendida por US$ 790 mil em 2013. Casas do início da carreira de Gehry raramente chegam ao mercado, segundo a Beyond Shelter — em maio deste ano, a Sirmai-Peterson House (1988), também projetada por ele em Thousand Oaks, foi vendida por US$ 2,4 milhões antes mesmo de o anúncio entrar oficialmente no ar.
A Benson House é um dos sete marcos históricos de Calabasas, ao lado da residência oitocentista de William C. Masson e da Arthur Rouse Residence (1973), de estilo midcentury modern, projetada pelo arquiteto americano Jerrold Lomax.