Curto-circuito

Na coluna "Curto-circuito", Matheus Drummond discute obras e os bastidores do circuito de arte.

Uma jovem artista publicou recentemente em seu Instagram uma série de fotografias nas quais aparece sentada, segurando uma plaqueta de papelão sobre a qual, com auxílio de softwares de edição de imagem, insere diferentes frases. Cito-as na sequência em que aparecem no “carrossel”: “Procura-se galeria de arte”; “Procura-se galeria de arte antirracista”; “Procura-se galeria de arte periférica”; “Procura-se galeria de arte indígena”; “Procura-se galeria de arte afrocentrada”; “Procura-se:”. A reiteração da fotografia pode ser entendida como suplemento daquilo que na plaqueta se lê. Assim reiterada, dá a pensar que a instância privada, ainda que não deliberadamente, é o lugar do reclame. A pauta minoritária, signo de uma reivindicação aglutinadora, comunitária por excelência, é conduzida ao âmbito do sujeito, que a imagem de si não cessa de indicar.

Ora, o reclame comunitário subsumido no particular, tensionado a ter um rosto, importa menos que essa tentativa de galgar posições mais ou menos conformistas lançando mão de instrumentos que de início tomaríamos como emancipadores. Por isso, não cabe aqui apresentar o trabalho nem sua autora, o que poderia assumir o tom de uma interpelação direta, mas reconhecer nessa manifestação a ocasião para certa elucidação. A atenção dada à imagem de si, para além da desconfiança narcísica, deve nos conduzir a outro aspecto. Mas o que as frases efetivamente reclamam não é a inserção no campo das artes, mas tão só naquilo que se constitui como seu circuito mais costumeiro: a galeria. E é justamente aí que se condensam alguns dos dilemas centrais da conjuntura atual...

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