
A britânica Es Devlin, uma das cenógrafas e artistas mais requisitadas do mundo, viu sua primeira exposição concebida na América Latina virar um fenômeno de público em São Paulo. Sou o Outro do Outro, em cartaz na Casa Bradesco desde 15 de março, ultrapassou a marca de 100 mil visitantes em cerca de três meses e teve a temporada prorrogada até 27 de setembro.
O número não surpreende quem acompanha a trajetória de Devlin. Ao longo de mais de três décadas, ela transitou entre a alta cultura e o espetáculo pop com rara fluidez: assinou instalações para a Tate Modern, o V&A e a Serpentine, montou uma intervenção na Assembleia Geral da ONU e desenhou cenografias para a Royal Opera House e o Metropolitan Opera — mas também para turnês de Beyoncé, Lady Gaga, Kendrick Lamar, Bad Bunny e U2. Essa dupla cidadania, entre o museu e o estádio, ajuda a explicar por que suas mostras costumam atrair um público que raramente frequenta galerias.
Organizada em seis instalações — Infinite Library, Mirror Maze, Falling, Come Home Again, Co-Imagine e Screen Share —, a exposição parte de uma premissa e a leva ao limite sensorial: a de que a identidade só se constrói na relação com o outro. O título dialoga com o pensamento do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro e seu perspectivismo ameríndio, em que o outro não é mero oposto, mas espelho que redefine quem olha. Em vez de contemplar, o visitante é levado a participar. Percepção, memória e imaginação, assim, vão sendo deslocadas a cada ambiente, num percurso que trata temas como coletividade e meio ambiente.
Segundo o museu, o projeto foi desenvolvido integralmente no Brasil, a partir de uma pesquisa iniciada há cerca de dois anos, com viagens da artista ao país e colaboração com equipes locais em todas as etapas — ponto que a curadoria faz questão de sublinhar. Para Marcello Dantas, curador da mostra, o marco de público confirma o interesse por experiências que convidam à participação e à reflexão coletiva. Ana Paula Wehba, Head de Cultura do Mata São Paulo, foi além e leu o resultado como prova de que o Brasil “pode conceber e realizar projetos artísticos de relevância internacional”.
A mostra integra o calendário da Casa Bradesco, centro cultural inaugurado em 2024 dentro do Mata São Paulo — complexo de cultura, gastronomia, moda e hospitalidade idealizado pelo empresário Alexandre Allard, a poucos passos da Avenida Paulista. Mantido pelo banco Bradesco, o espaço já recebeu uma retrospectiva de Anish Kapoor e a exposição Re-Selvagem, de Eva Jospin, e se posiciona com clareza no circuito das grandes mostras-experiência que se multiplicaram nos últimos anos: participativas, fotogênicas e desenhadas para o grande público. Para marcar os 100 mil visitantes, o banco lançou ainda um documentário sobre os bastidores da exposição, com entrevistas de Devlin e Dantas, em seu canal no YouTube.
Sou o Outro do Outro fica em cartaz até 27 de setembro de 2026, de terça a domingo, das 12h às 20h, na Casa Bradesco, na Alameda Rio Claro, 190, na Bela Vista. Os ingressos custam a partir de R$ 50, com entrada gratuita às terças-feiras mediante reserva pelo aplicativo.