A Mocidade Independente de Padre Miguel, que abriu o segundo dia de apresentações do Grupo Especial na Marquês de Sapucaí com samba-enredo dedicado a Rita Lee, trouxe uma ala voltada à produção de Oiticica como eixo conceitual do desfile, aproximando a contracultura musical da cantora às experiências visuais do neoconcretismo.
Com fantasias formadas por tecidos sobrepostos, coloridos e brilhantes, o segmento trouxe à pista os parangolés criados pelo artista na década de 1960. Os trabalhos originais da série, concebidos como estruturas vestíveis, ganhavam forma no movimento dos componentes, produzindo variações cromáticas. E o fato é que a presença dessa e de outras alas que seguiam o carro alegórico “Psicodelicamente Lisérgico” se tornaram a garantia para um desfile que não fosse só uma homenagem biográfica.

Associado ao universo do samba e às proposições participativas, Oiticica desenvolveu, a partir de 1964, os seus primeiros Parangolés. Entendendo, através deles, que a cor pode funcionar como ação e o corpo como suporte, o artista colocou debates brasileiros relacionados à “pintura depois da tela” e à possibilidade de incorporação da cor ao mundo em outro patamar.
Casada, então, a trajetória de Rita Lee com as linguagens experimentais que marcaram a arte brasileira na segunda metade do século XX, a aposta da escola foi em uma narrativa menos cronológica, capaz de construir um estado de liberdade ao próprio percurso do enredo.
Na apuração, a Mocidade terminou em 11º lugar, com 267,4 pontos, ficando fora do Desfile das Campeãs. Mas o enredo não deixa de funcionar como um lembrete do papel de Oiticica para reafirmar o samba enquanto espaço vivo às artes visuais, assim como não esvazia os parangolés da força que tiveram para a história da arte brasileira.

