Do Barão ao Jongo: Um museu de arte contemporânea no interior do Rio de Janeiro

Exposição “Chegança” marca abertura do Museu Vassouras e desloca o olhar do passado cafeeiro do município para a esfera pública

Cortesia Museu Vassouras. Foto: Rafael Salim.

 

No coração do centro histórico de Vassouras, no sul fluminense, um museu de arte contemporânea se instala em pleno Vale do Café. A proposta, de saída, consiste em reescrever a forma como esse território é visto – sobretudo por quem mora nele. 

O projeto do Museu Vassouras se desdobra em um raio que alcança cerca de 14 cidades, do entorno imediato até Volta Redonda, Barra Mansa, Paraíba do Sul e Três Rios, cartografando um território que historicamente abasteceu o imaginário brasileiro com imagens de fazendas coloniais e barões do café, mas raramente apareceu como polo de cultura contemporânea.​

O processo de implantação ocupou todo o ano de 2025, combinando a restauração do edifício – um antigo marco da história da saúde na região – com a construção de identidade institucional, parcerias e equipe. O relatório do período fala em esforço contínuo de “fazer o museu existir”: estruturar gestão, ambientação arquitetônica, sinalização e inseri-lo em circuitos culturais por meio de articulações com instituições de peso. Mas o desfecho da trama veio em dezembro do último ano, quando o prédio restaurado abriu as portas ao público com a exposição inaugural “Chegança”, apresentada pela equipe como resultado de um processo coletivo que pretende afirmar um “museu vivo”, em constante construção com e para as pessoas do território.​

O museu nasce sem acervo próprio nem reserva técnica, operando a partir de exposições temporárias de médio fôlego, com mostras de seis a nove meses que combinam obras de diferentes origens: empréstimos de instituições, coleções privadas, acervos de artistas e comissões produzidas especialmente para o projeto. O apoio decisivo do colecionador Ronaldo Cezar Coelho – cuja coleção está reunida no Instituto São Fernando, também em Vassouras – aponta para um modelo peculiar em que parte das obras que o público vê pertence ao instituto, mas o museu assume a função de mediar o conjunto para um público mais amplo (e isso sem se confundir com a lógica de um acervo privado em exibição).​

 

Cortesia Museu Vassouras. Foto: Rafael Salim.

 

Pensar uma esfera pública da arte, sem dúvida, significa também enfrentar barreiras históricas de acesso aos museus. O convite para a curadoria de “Chegança”, por motivos como esse, recaiu sobre o pesquisador e curador Marcelo Campos, que consolidou uma trajetória dedicada à democratização do espaço museal. “O convite ao Marcelo veio justamente da vontade de pensar como atravessar essa barreira que muitas vezes impede pessoas sem experiência museal de frequentarem esses espaços. A ideia era criar um lugar de reconhecimento e pertencimento dentro da instituição”, explica Catarina Duncan, diretora artística do museu. “Ao contrário de uma curadoria à distância, Campos passou cerca de um mês em pesquisa de campo na região, ouvindo moradores, mapeando manifestações culturais e rastreando histórias que escapam ao roteiro das fazendas históricas”.​

É a partir dessa imersão que se desenha o conceito de “Chegança”. A palavra, lembra Catarina, “remete ao ato de chegar, de pedir licença. É um termo muito presente na oralidade popular, embora não seja formalmente dicionarizado”. Marcelo a toma como metáfora para a primeira exposição do museu: chegança como rito coletivo – atravessar cantando, entrar dançando, existir em roda –, gesto que aparece já na apresentação curatorial, que define a mostra como um movimento em que, nas folias, rodas de rap e cortejos populares, “o povo se enfeita de memória, vestindo alegorias que são linguagem, proteção e afirmação de vida”.​

O recorte territorial, que costuma ser associado quase exclusivamente ao século XIX, ganha aqui outras camadas. “A exposição também busca olhar para outras narrativas desse território”, diz Catarina. Entre as perguntas que orientam o percurso estão a influência do Rio Paraíba do Sul no imaginário local, o papel da ferrovia na formação de escolas de samba da Baixada Fluminense, o impacto do jongo na música brasileira e as trajetórias de figuras como Clementina de Jesus e Mariana Crioula.

Organizada em três núcleos – Folias, Vapor e Milagres –, a exposição oferece ao visitante um mapa simbólico desse Vale em movimento. 

Folias se ancora nas pesquisas de cultura popular de Lélia Gonzalez para tratar de festas, folias de reis e cortejos de rua como política de permanência, em que celebração é também luta. 

 

Vista da exposição “Chegança”. Foto: Thiago Barros.

 

Vapor faz referência ao trem que ligou o Vale do Paraíba à Central do Brasil e, com ela, ao Rio de Janeiro, ecoando o ponto de jongo “Vapor berrou na Paraíba / chora eu / fumaça dele na Madureira” ao narrar como a circulação de corpos, do trabalho e da música entre o interior, a Baixada e a capital ecoa sobre escolas de samba, jongo e, mais tarde, o funk. 

Milagres parte do Rio Paraíba do Sul para falar de mitos de água, da aparição de Nossa Senhora Aparecida ao caboclo d’água, de práticas devocionais e saberes indígenas. Tudo isso em nome de tornar o rio um ser vivo.

Mas se a curadoria externa organiza o eixo conceitual e a seleção de obras, a operação cotidiana do museu está fincada em uma equipe majoritariamente local. Hoje, são quase 30 profissionais, cerca de 90% deles oriundos de cidades do Vale do Paraíba, selecionados por chamadas abertas. O educativo, iniciado ainda antes da abertura com cursos de formação de professores e programas de produção e mediação, é descrito por Catarina como “coluna vertebral” da instituição.

 

Vista da exposição “Chegança”. Foto: Thiago Barros.

 

Os números de público ajudam ainda a dimensionar o impacto dessa chegada. Em dezembro, mês da inauguração, o museu recebeu 6.077 visitantes e, até agora (março), já soma mais de 17.000 pessoas – numa cidade de pouco mais de 33 mil habitantes. 

Para Catarina Duncan, a aposta de instalar um museu contemporâneo em um espaço ainda majoritariamente rural é, por si só, uma tentativa de redimensionar a esfera pública da arte. “Acho que esse é um dos grandes impactos dessa instituição hoje: falar de um museu integrado ao seu território fora de um grande centro”, afirma. Ao inaugurar com uma mostra que escolhe as cheganças – de trens, rios, folias, corpos – como síntese da coisa, o Museu Vassouras reitera que o mapa da arte contemporânea brasileira pode – e talvez precise – ser redesenhado a partir de outras vozes. E os esforços parecem já mostrar algum resultado.