Como uma pintura do século XVI foi de Hitler à National Gallery?

"Cupido se queixando a Vênus", de Lucas Cranach, o Velho, foi adquirida pelo museu londrino em 1963 com proveniência falsa — e sua história inclui uma jornalista nomeada prefeita por um dia e a coleção pessoal de Adolf Hitler

 

Cupid complaining to Venus was acquired by London’s National Gallery in 1963
Lucas Cranach, o Velho. “Cupido se queixando a Vênus” (1526-27). National Gallery.

 

Em algum momento por volta de 1935, Adolf Hitler pendurou na sala de estar de seu apartamento em Munique uma pintura do século XVI: “Cupido se queixando a Vênus”, de Lucas Cranach, o Velho, datada de 1526-27. Ali, numa obra em que o deus alado reclama à deusa do amor as picadas de abelhas que recebeu ao roubar um favo de mel, Hitler recebia frequentemente sua amante, Eva Braun. Hoje, a pintura pertence à National Gallery de Londres. O caminho entre os dois endereços é uma das histórias de proveniência mais improváveis da história da arte europeia.

A confirmação de que a obra esteve no apartamento do Führer veio de uma fotografia tirada no início dos anos 1940, publicada numa inserção ainda mais improvável: um catálogo de leilão de móveis de 1978, em Munique, onde a imagem havia sido reproduzida para autenticar um conjunto de prateleiras vendidas com proveniência hitlerista. A pesquisadora Birgit Schwarz, especialista em coleções nazistas, notou o Cranach no canto da fotografia e publicou os achados em alemão em 2023. O The Art Newspaper é o primeiro veículo em língua inglesa a reproduzir a imagem.

A história de como a obra saiu de Munique é igualmente extraordinária. Em maio ou junho de 1945, Patricia Lochridge, jornalista americana de 29 anos que cobria a Alemanha para a revista Woman’s Home Companion, foi nomeada prefeita de Berchtesgaden — a cidade alpina de Hitler, próxima à fronteira austríaca — por um dia, pelo comandante americano local, numa espécie de golpe de relações públicas. Como prefeita de um dia, Lochridge foi levada a um depósito de obras recuperadas e convidada a escolher uma pintura para levar para casa. Escolheu o Cranach. Seu filho descreveu o episódio à National Gallery em 2004: “Minha mãe foi informada de que poderia entrar no depósito e pegar a peça que quisesse. Ela então contrabandeou a pintura para os Estados Unidos.”

Em 1963, a National Gallery comprou a obra de boa-fé de uma galeria nova-iorquina — com uma proveniência falsa fornecida pelo dealer, que omitiu toda a trajetória nazista e relatou uma linha de herança fictícia. Desde 1999, o museu é transparente sobre a ausência de proveniência verificada para o período entre 1933 e 1945 e continua a investigar quem possuía a obra antes de aparecer na parede de Hitler. A questão central permanece sem resposta: a pintura foi confiscada de um colecionador judeu ou vendida numa “venda forçada”? Nenhum descendente do proprietário anterior se manifestou. O silêncio, como o museu reconhece, pode significar que uma família inteira foi exterminada no Holocausto.

Há um detalhe que Cranach inseriu na pintura e que passa despercebido na maioria das reproduções: no canto superior direito, uma inscrição em latim explica que Cupido foi picado porque estava “roubando” mel de uma colmeia. Hitler, que provavelmente havia roubado a própria pintura, nunca comentou sobre o texto.

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