Artista aposta: Joji Ikeda

Pintor nissei criado entre o ikebana e a tinta, Joji Ikeda leva mais tempo apagando do que pintando.

Joji Ikeda cresceu num ambiente em que a arte era o que acontecia nos fins de semana. Filho de japoneses — mãe de Hiroshima, pai de Fukuoka —, ele se formou nissei numa casa onde a cerimônia do chá, o ikebana e o shodo conviviam com aulas de pintura a óleo no quintal. Aos sábados, a mãe se reunia com um grupo de pintores sob orientação do professor Aki para fazer modelo vivo e naturezas-mortas. Ikeda não percebia, então, que aquilo tudo estava se depositando nele — palavra que escolheria, mais tarde, para descrever o que a tinta faz na tela quando diluída ao ponto de obedecer à gravidade.

A percepção de que essa herança atravessava o trabalho veio com o tempo. Ikeda estuda com o pintor Paulo Pasta e a pesquisadora Michiko Okano, participa do grupo de história da arte coordenado pelo crítico Rodrigo Naves e conviveu durante anos com o escultor e pintor Yutaka Toyota. É um percurso longo, e, generoso como sempre foi, ele faz questão de dizer que segue em andamento.

Segundo Joji, muita gente associa suas pinturas à paisagem. E isso, provavelmente, porque essas pinturas nascem de experiências com água, névoa, areia e musgos de jardins japoneses que encaminham o artista a enfrentar a tela por meio desses recursos através do que eles são capazes de produzir depois que já passaram.

Para chegar aí, Ikeda usa tinta a óleo bastante diluída e, com frequência, a própria gravidade. Costuma passar mais tempo retirando matéria do que acrescentando e o apagamento, para ele, é a própria descoberta da coisa. Não sem motivo que o artista repita uma citação de Robert Ryman com certa frequência: apagando algo, você adiciona algo.

Só que o interesse pelo intervalo tem nome na estética japonesa: é o Ma, um conceito que descreve a inter-relação que o espaço entre as coisas cria — e Ikeda parece usar dele como forma de entender o que o tempo e a percepção produzem dentro de uma pintura.

Certa vez, Paulo Pasta observou que o trabalho de Ikeda procura “dar forma ao silêncio e ao vazio” (isso tudo numa conversa em francês que a dupla desbravava no WhatsApp). Para o artista, isso garantiu um tipo de norte inusitado que explicava tanta, mas tanta, coisa, a ponto de ele voltar à sentença sempre que consegue. E, num momento em que imagens disputam entre si por atenção, dá para dizer que existe algo de undergroud numa pintura que não se entrega de imediato aos olhos e ao entendimento.

O que sobra, afinal, nessas telas são os vestígios de camadas que em algum passado já foram capazes de sustentar a própria existência. Mas, como na vida, aquilo que fica não costuma ser exatamente como foi colocado.

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