
Antonio Obá pintou um mural, sem esboço, diretamente numa parede da galeria Mendes Wood DM, na Barra Funda, em São Paulo, num último ato para abrir a exposição “Nascimento”. A intenção era que a obra “saísse na cara e na coragem”. O resultado para, ele, soa como uma revisão simbólica. E uma celebração.
Em cartaz até 28 de fevereiro, a mostra apresenta um conjunto de trabalhos, com técnicas que vão da pintura ao filme, do desenho à instalação, em que o artista reorganiza símbolos caros de sua poética para tentar dar sentido a duração de um instante e de uma vida.
Uma instalação inédita, no fundo da galeria, se refere diretamente à ideia de jogo e de sorte, com colunas de búzios derramando sobre peneiras de bronze douradas. Na entrada do espaço expositivo, um caminho de espadas de São Jorge e Iansã, levam até um altar com dois troncos que simbolizam o pelourinho.
A instalação Ka’a porá (2024) apresenta esculturas de pés, representando tanto o pé humano quanto o de uma árvore, da conexão com o solo.
Além de obras em proporções maiores, telas de diferentes tamanhos e técnicas compõem a mostra. É o caso de um conjunto de 22 pinturas de pequeno formato com a leitura de Obá sobre o tarô.
Na entrevista exclusiva ao ARTEQUEACONTECE, Antonio Obá relembra o surgimento do título da exposição, a relação de longa data com tarô e que se tornariam em uma série de pinturas para mostra. E, ao falar do processo de criação, questiona a dicotomia da sorte e a luta que trava ao pintar um quadro.
AQA: O título “Nascimento” veio antes das obras? Como nasce esse título da exposição?
Antonio Obá: Eu estava em viagem, em Paris abrindo uma exposição e num dado momento estava caminhando pelas ruas ali, conversando sobre trabalho, evidentemente, e num dado momento falo que o nome da exposição vai ser “Nascimento”. Foi como lançar semente, sem saber de que árvore era. A partir desse dado, a situação toda começou a se configurar num pensamento que vinha desse nascer, esse marco que determina uma ideia de caminho, que é a vida. As obras pontuam essa ideia de trajetória, dos percalços, das benesses, das venturas e desventuras que ocorrem à revelia da nossa vontade ao caminhar por esse mundo, ao caminhar por essa vida. O trabalho demarca enquanto símbolo uma tentativa de reflexão acerca desse caminho, como se cada obra ali demarcasse uma celebração desse estar na vida, e por a gente não saber o que que vai acontecer no minuto seguinte do caminho até o fim. O que o humano faz é simbolizar por meio de jogos, da própria religião, de filosofias maneiras de dar sentido à vida.
AQA: Quais elementos você traz que representam esse caminho, essa fortuna da vida do nascimento e o caminho pós-nascimento?
Antonio Obá: Esses elementos que são colocados na exposição, os búzios, a própria interpretação pessoal que faço do tarô são artifícios. A gente vai ter a própria ideia do objeto artístico. E a linguagem entra num ponto muito essencial que é essa tentativa de caber. A gente coloca em frases, em símbolos, elementos em pleno exercício da linguagem, como uma maneira de significar a realidade. E isso é de uma peculiaridade extremamente humana. Os búzios, nessa tentativa do jogo da adivinhação, é como um elemento que significa sorte. Sorte, de uma maneira ampla, a boa e a má. A gente entende um pedacinho e ainda divide apenas entre bem ou mal. E geralmente coloca o mal numa posição subalterna. No entendimento universal, místico, misterioso, tudo se mistura, numa ideia da complementaridade. A ideia de celebrar momentos e sortes através das obras é colocar no mesmo patamar essas dicotomias. Logo na entrada da exposição tem uma espécie instalação-altar, onde isso se demarca, onde coloco duas espécies de coluna ou pelourinhos, em que um é perfurado com pregos, e o outro é perfurante, numa dicotomia de mesmo patamar, para entender que, estando na vida, é inevitável ser ferido e também é inevitável não ferir. Algo da própria dinâmica do existir e que escapa ao nosso querer.

AQA: Como entram os ensinamentos da sua avó e a memória nas obras?
Antonio Obá: Tem aquele ditado “o fruto nunca cai muito distante do seu pé”. Desde muito longe reconheço essa pertinência de uma memória que a gente pode entender como uma memória, como ancestral ou genealógica mesmo, que compõe um certo imaginário afetivo. E a memória está sempre passível de reinvenção. É um terreno que não é seguro, é um terreno movediço. E sempre tem algo novo, quando se pensa que é um chão firme, começa a submergir novamente. Nessa submersão é possível reencontrar ou encontrar uma pepita diferente.
O trabalho vem muito das memórias e o que mais faço é tentar dar um certo sentido. Meus trabalhos pairam por uma espécie de memorial.
AQA: Você já disse em outras entrevistas que cada pintura sua é uma luta. Como foram travadas essas pinturas da mostra, tem a ver com essa escavação da pepita?
Antonio Obá: Sim, que é um cutucar, um escarafunchar certas memórias e delas extrair algum potencial estético, poético. E tem a ver com o próprio embate da matéria, que já é da natureza do processo de criação mesmo. E falo do aspecto formal, de lidar com o material, com a fisicalidade da tinta, da diluição. A tinta óleo permite alguma coisa nova a ser descoberta. Além de uma busca de tentar não se repetir. Uma vez que você aprende muita coisa no decorrer de uma pintura, você acredita que vai levar tudo que você aprendeu pra outra. Mas quando dá a primeira pincelada num novo trabalho, aquela história já se configura de uma maneira totalmente diversa da planejada. Então, o que você tem que fazer é pedir licença e confiar no processo.
É a luta de algo que não está criado, que não existe e, aos poucos, vai tateando, às vezes com respeito, às vezes com desespero, mas sempre no intuito de tentar chegar numa conciliação que se configura num trabalho acabado. Mas não é tranquilo, não.

AQA: Você traz na série de pinturas de sonhos e do tarô. É outra camada da conciliação, da relação entre o desconhecido e o material, pelo uso dos elementos físicos para uma simbologia?
Antonio Obá: O corpo conceitual da exposição foi se configurando nessa ideia de sorte, a partir do nascer, algo de fortuna e fortuita mesmo. A questão do tarô já vem de alguma data. Tive primeiro contato com esse aspecto mais psicológico do tarô, ainda no ensino médio, a partir de uma série de leituras. Na época mexeu muito comigo, sobretudo nos sonhos, passei a ter sonhos de uma carga simbólica muito grande, ou pelo menos a percebê-los dessa maneira.
Por ocasião desta exposição, retomei. Relia certas obras que tinham a ver com esse universo arquetípico e passei a estudar o tarô de uma maneira mais direcionada e subjetiva também. Então eu tirava as cartas pra mim mesmo, e a partir da leitura, do arcano que tirava, criava as conexões do ponto de vista da imagem. Foi um processo mais lento, mais reflexivo mesmo, no diálogo desses símbolos todos.
AQA: Como cada exposição é também uma forma de retomar suas próprias camadas e o que você descobriu nesse escarafunchar?
Antonio Obá: Algo que ficou muito perceptível pra mim, no diálogo com as pessoas que estavam vendo, foi como a exposição talvez soe como uma revisão simbólica ali, sobretudo no mural. Vou dar um exemplo. Me neguei em trabalhar num esboço do mural, porque não queria destinar o tempo para pensar a composição, pra mim ficaria melhor já estar no local, e fazer na cara e na coragem. A gente não está inventando a roda, na verdade, a gente não está criando uma simbologia nova, muito pelo contrário, os símbolos já estão postos e o que a gente faz é pensar e realocar de uma certa maneira para tentar dizer outras coisas. Mas a simbólica é universal, e por isso as pessoas veem, se reconhecem, interpretam, porque abrange um campo muito maior que o pequeno universo do artista. Talvez a exposição está dada ali, mas não se fecha enquanto processo, porque é um recorte de um pensamento, um nascimento.
Serviço
“Nascimento”, de Antonio Obá
Até 28/02/2026
Mendes Wood DM
R. Barra Funda, 216 – Barra Funda, São Paulo