
A participação da África do Sul na Bienal de Veneza de 2026 foi oficialmente cancelada após um impasse entre o governo e a artista Gabrielle Goliath, cujo projeto foi barrado por abordar a guerra em Gaza. O pavilhão do país permanecerá vazio, uma decisão rara que expõe tensões diretas entre política cultural e liberdade artística.
Selecionada para representar o país, Goliath apresentaria uma nova versão de Elegy, obra em desenvolvimento desde 2015 que investiga luto e violência, com foco em feminicídios, crimes contra pessoas LGBTQIA+ e, mais recentemente, vítimas de conflitos como o de Gaza.
O conflito começou quando o ministro da Cultura, Gayton McKenzie, classificou a inclusão de uma homenagem à poeta palestina Hiba Abu Nada, morta em um ataque aéreo israelense em 2023, como “altamente divisiva” e exigiu alterações no projeto. Diante da recusa da artista, o governo cancelou oficialmente o pavilhão em janeiro.
Goliath e a curadora Ingrid Masondo recorreram à Justiça para tentar reverter a decisão, argumentando violação da liberdade de expressão. O pedido, no entanto, foi rejeitado por um tribunal sul-africano, consolidando a retirada do país da Bienal.
A decisão provocou forte reação no meio artístico internacional, que vê o caso como um precedente preocupante de interferência estatal direta no conteúdo de exposições.
Apesar da exclusão oficial, a obra Elegy ainda deve ser exibida em Veneza de forma independente, fora da programação da Bienal, deslocando o debate do espaço institucional para o entorno do evento e mantendo em circulação as questões que motivaram sua censura.
No centro do episódio está uma tensão cada vez mais recorrente no circuito global: quando a arte aborda conflitos contemporâneos, o limite entre representação, posicionamento político e censura institucional se torna inevitavelmente instável.