
A onda de assaltos a museus franceses ganhou um novo capítulo na sexta-feira: um colar de ouro celta com 2.500 anos, parte do célebre Tesouro de Vix, foi furtado em plena luz do dia no Musée du Pays Châtillonnais, na Borgonha. Segundo o promotor de Dijon, Olivier Caracotch, os autores nem precisaram forçar a entrada — pagaram o ingresso como qualquer turista, quebraram a vitrine que protegia a peça por volta das 10h30 e saíram pela porta principal do museu.
O caso já está nas mãos da Jurisdição Interregional Especializada de Nancy, órgão que lida com crime organizado, dada a complexidade da investigação. Para o prefeito de Châtillon-sur-Seine, Jérémie Brigand, o episódio expõe uma fragilidade que já era conhecida: o museu havia registrado duas tentativas de arrombamento noturno nos últimos oito meses e, em resposta, investira 150 mil euros em câmeras e sensores de movimento. Nada disso deteve os ladrões, que Brigand descreveu como organizados, rápidos e determinados — um ataque, segundo ele, ao patrimônio cultural e ao interesse público. Para o prefeito, o torque é insubstituível: uma peça única no mundo e um símbolo da história regional.
O roubo acontece pouco depois de outro escândalo ter sacudido o setor: o assalto ao Louvre, em Paris, quando criminosos levaram US$ 102 milhões em joias em menos de oito minutos — também durante o expediente do museu. Aquele episódio custou o cargo à presidência da instituição e forçou o Louvre a antecipar a modernização de seu sistema de segurança, prevista para começar em janeiro de 2027; a Galeria de Apolo, de onde as joias desapareceram, reabriu esta semana vazia. Na esteira do caso, outro museu francês, o Lalique, em Wingen-sur-Moder, já havia sido alvo de ladrões, que levaram US$ 4,57 milhões em joias no início do mês.
A peça roubada em Vix não é uma joia qualquer. O torque de ouro 24 quilates, com pouco mais de 450 gramas, integra o acervo descoberto em 1953 no sepultamento da chamada “Dama de Vix” (ou Princesa de Vix), ao pé do Mont Lassois — sepultamento datado entre 470 e 460 a.C. Ao lado dele, o túmulo guardava outros dois tesouros: a Cratera de Vix, vaso grego com cena de Medusa fabricado por volta de 530 a.C. na colônia de Síbaris, sem explicação conhecida sobre como chegou à França, e a Fiala de Prata, considerada o vaso de prata mais antigo já encontrado ao norte dos Alpes.
O desenho do torque conta, por si só, uma história de trocas culturais: patas de leão sustentam esferas ocas nas extremidades, cada uma coroada por um Pégaso, referência à influência grega sobre a região, enquanto duas esferas em forma de pera remetem a símbolos solares celtas. Encontrado originalmente sobre o crânio da princesa, o objeto chegou a ser interpretado como um diadema — pesquisas posteriores mostraram que era, na verdade, usado como colar por membros da aristocracia, e que sua posição no túmulo se deveu a um desmoronamento pouco depois do enterro. Para o museu, a peça sintetiza a intensa circulação de bens e técnicas que marcava a Europa ao fim da Primeira Idade do Ferro.