Estátua gigante de Messi é a Capela Sistina da Patagônia

Numa cidade que sobreviveu à privatização da estatal que a sustentava, um escultor amador ergueu sozinho um Messi de 26 metros e 70 toneladas

Há um ano, Aldo Beroisa era mais um aposentado da ferrovia estatal argentina tentando viver de escultura numa cidade que o resto do país considerava dispensável. Mas recentemente tornou-se o homem que construiu, sozinho, a estátua de Messi mais alta do mundo – e também aquele cuja obra a internet transformou em piada.

A estátua fica em Cutral Có, cidade de 40 mil habitantes erguida há quase um século em torno dos empregos que a estatal petrolífera YPF oferecia na região. Quando o governo privatizou a empresa em 1992, milhares de famílias perderam o emprego de uma vez. Autoridades disseram à população que ela bem que poderia ir embora – a cidade era remota demais, encravada num deserto inóspito sem razão para sobreviver. Beroisa, demitido da ferrovia que também havia sido privatizada, ficou. Os vizinhos protestaram e ficaram também. E um técnico ferroviário com vocação renascentista pegou um cinzel.

 

 

Antes do Messi vieram manequins para lojas de roupa, figuras de presépio, um dinossauro em tamanho real para o museu local, uma Última Ceia, uma estátua de Jesus de 15 metros para a qual estudou fotografias da Pietà de Michelangelo (o medo de avião da esposa nunca permitiu que visse a Capela Sistina original). Quando um funcionário esportivo da cidade sugeriu, há mais de um ano, construir uma estátua em tamanho real de Messi, Beroisa propôs ir além: a cidade de Calcutá, na Índia, já tinha um Messi de 21 metros. O dele seria 4,5 metros mais alto. O prefeito Ramón Rioseco aceitou chamando o projeto de “nossa Capela Sistina” — frase que carrega tanto orgulho quanto ansiedade, porque, como o próprio prefeito notou, ninguém repara se a Última Ceia errou os traços dos apóstolos, mas todo mundo vai repara se o rosto de Messi saiu errado. “Messi é Messi”, resumiu.

 

 

A decisão que geraria a polêmica internacional nasceu de outro medo, mais prosaico. A estátua de Calcutá havia sido removida em junho depois de balançar perigosamente com o vento. Nervoso com a possibilidade de o mesmo acontecer com sua obra de 70 toneladas, Beroisa tirou o troféu da Copa do Mundo das mãos de Messi e o posicionou entre os joelhos do jogador – solução estrutural que a internet leu como uma coreografia bem menos solene do que ele pretendia. Em Cutral Có, poucos visitantes pareceram notar ou se importar. “Dá muito trabalho e esforço para a gente ter algo assim aqui na Argentina”, disse o paleontólogo Federico Poblete, que viajou para ver a obra. “É a única no mundo, e é realmente incrível.”

A estátua custou cerca de US$ 130 mil aos cofres da cidade, e isso sem patrocínio de fundo soberano, sem financiamento de bilionário, apenas a mesma devoção obstinada que faz torcedores argentinos improvisarem antenas de TV para assistir a uma partida ou se espremerem dez num quarto de hotel para pagar uma viagem à Copa. A piada vai passar, como passam as piadas da internet. Mas, com seu ângulo infeliz e suas proporções discutíveis, a escultura vai continuar de pé numa estrada do deserto patagônico, como testemunho menos de um escultor amador do que de uma cidade inteira que se recusou a desaparecer quando o país inteiro lhe disse que deveria.