
Em 2021, Dalton Paula fundou o Sertão Negro num bairro de Goiânia com a ideia de que um ateliê podia ser também uma escola, uma horta, um banco de sementes e um quilombo. Cinco anos depois, o projeto participou da 36ª Bienal de São Paulo, integrou exposições no MASP e na Storefront for Art and Architecture de Nova York, e foi reconhecido pelo Ministério da Cultura como polo artístico importante do Brasil. Só que nenhuma dessas conquistas resolveu a pergunta mais difícil de uma iniciativa cultural que cresce sem perder a própria essência. Afinal, como é possível se institucionalizar sem acabar domesticado?
A resposta que o Sertão Negro encontrou foi contratar alguém que fez da tensão entre estrutura e radicalidade o centro de sua prática. Beatriz Lemos — curadora-chefe do MAM Rio entre 2020 e 2024 e curadora-coordenadora do Inhotim até este ano — assumiu a diretoria artística do projeto em junho de 2026, ao lado de Dalton Paula, que permanece como diretor-presidente. O desafio, agora, é de construir um fundo de sustentabilidade, um programa de patronos e uma estrutura institucional para um espaço que se define, antes de qualquer coisa, pela recusa de seguir o sentido de como as instituições costumam funcionar.
Conversamos com Beatriz Lemos e Dalton Paula sobre o que muda — e o que não pode mudar — quando um projeto nascido de um gesto íntimo e territorial passa a ocupar um lugar de interlocução dentro do sistema das artes.
Gabriel San Martin: A nomeação chega num momento em que o Sertão Negro assume formalmente um processo de institucionalização, com fundo de sustentabilidade, programa de patronos e ampliação da estrutura. Como você está traduzindo o desafio de “virar instituição” sem perder o caráter radical e experimental que marcou o início do projeto?
Beatriz Lemos — Existe uma ideia bastante difundida de que institucionalização e radicalidade são forças opostas. O desafio que me interessa é justamente o contrário: pensar como uma instituição pode criar condições para sustentar a experimentação, o dissenso e a transformação, sem que isso resulte na domesticação daquilo que a tornou relevante. O Sertão Negro chega a este momento a partir de uma trajetória singular. Sua relevância não nasce da institucionalização; ela foi construída pela força de suas práticas, pela relação com os territórios e pela consistência de seu pensamento artístico. A institucionalização surge, portanto, como uma ferramenta de continuidade.
O que me mobiliza é a possibilidade de imaginar outros modelos institucionais. O campo cultural ainda reproduz estruturas marcadas pela verticalidade, pela competitividade, pela burocratização e, muitas vezes, por uma distância entre os discursos que defendemos e as práticas que realizamos. Tenho interesse em pensar o Sertão Negro como um espaço capaz de experimentar outras formas de organização, nas quais a escuta, o cuidado e a coerência entre pensamento e ação sejam princípios estruturantes.
Por isso, meu primeiro movimento tem sido ouvir. Tenho buscado conversar individualmente com cada pessoa que integra o projeto, porque acredito que o verdadeiro patrimônio de uma instituição são as pessoas que a constroem diariamente. Antes de propor caminhos, é preciso compreender os saberes, experiências e perspectivas que já existem aqui. As instituições só permanecem vivas quando as pessoas que as compõem se sentem parte de sua elaboração. Essas relações não são um complemento da gestão; são a sua base.
Vejo este momento como uma oportunidade de consolidar uma estrutura capaz de garantir permanência sem perder a capacidade de transformação. Uma instituição que fortaleça sua atuação pública sem abrir mão de sua potência crítica e experimental, afirmando o Sertão Negro como espaço de imaginação, produção de conhecimento e construção de outros futuros possíveis.
GSM: Tendo passado por instituições como MAM Rio e Inhotim, além de percorrido uma trajetória em iniciativas independentes, como o Lastro, que aprendizados desses dois campos você toma como fundamentais para desenhar o modelo de governança e de programação do Sertão Negro daqui para frente?
BL — Gosto muito dessa pergunta porque acredito que justamente por ter construído minha trajetória transitando entre grandes instituições e iniciativas autônomas e experimentais é que posso contribuir de forma significativa para este momento do Sertão Negro. Ao longo dos anos, aprendi a navegar com familiaridade tanto pelas ferramentas de gestão, planejamento e sustentabilidade institucional quanto pelos territórios da experimentação, da imaginação radical e da criação de novas possibilidades. Nunca enxerguei essas dimensões como opostas. Pelo contrário, acredito que uma instituição só permanece relevante quando consegue colocar sua estrutura a serviço da invenção e não da repetição.
Minha prática curatorial sempre esteve comprometida com a ideia de que a curadoria possui agência para transformar os contextos em que atua. Isso implica pensar criticamente não apenas as obras e os artistas, mas também as próprias estruturas que organizam o campo da arte: seus códigos, seus mecanismos de legitimação, seus ritos de passagem e suas formas de distribuição de poder. Tenho interesse em compreender essas estruturas, mas também em imaginar como elas podem ser deslocadas, ampliadas ou reinventadas.
Talvez o principal aprendizado dessa travessia seja justamente entender que não existe transformação sem estrutura, mas que a estrutura, por si só, não produz transformação. O encontro entre essas duas forças é o que mais me interessa. A experiência acumulada em diferentes contextos me deu um senso muito concreto das possibilidades e dos limites de cada modelo, mas também a convicção de que é possível construir instituições mais permeáveis, colaborativas e coerentes com os valores que defendem. Vejo o Sertão Negro como um lugar privilegiado para esse exercício — um espaço onde pensamento crítico, experimentação artística, agroecologia, atuação territorial e sustentabilidade institucional não precisam ser entendidos como campos separados, mas como partes de um mesmo projeto.
GSM: Você destaca que o que há de mais radical hoje na arte brasileira são experiências que articulam imaginação, prática cotidiana e redistribuição concreta de recursos. Que tipos de políticas de cuidado, remuneração e circulação você pretende implementar para que alguma redistribuição se materialize no Sertão Negro?
BL — Acho importante dizer que muitas vezes falamos sobre redistribuição como um horizonte futuro, quando, no caso do Sertão Negro, ela já existe como prática concreta. E talvez seja justamente isso que torne este projeto tão singular.
Para mim, uma das experiências mais radicais produzidas pela arte contemporânea brasileira nas últimas décadas é o gesto de Dalton Paula ao criar o Jatobá Nascente. Vivemos em um campo que frequentemente elabora diagnósticos sofisticados sobre desigualdade, acesso e reparação histórica, mas são raros os momentos em que essas reflexões conseguem se materializar em transformações concretas. Dalton é um dos poucos artistas de sua geração que conseguiu converter imaginação política em realidade. Por isso, considero seu trabalho precursor. Não apenas pela relevância de sua produção artística, amplamente reconhecida, mas pela capacidade de expandir o próprio entendimento do que uma prática artística pode produzir no mundo.
Existe algo de profundamente transformador na possibilidade de artistas negros conquistarem acesso à moradia por meio da venda de suas obras. Esse é um gesto que desloca estruturas históricas de exclusão e cria condições reais para que outras formas de futuro possam existir. O que me impressiona é que essa visão não se limita ao campo da arte. Ela se desdobra na construção de uma escola onde arte, educação, agroecologia, memória, pertencimento e autonomia caminham juntos. Quando pensamos na horta comunitária, nos profissionais da agroecologia trabalhando diariamente com artistas, educadores, pesquisadores e crianças, estamos falando de um projeto que entende cultura para além da representação. Estamos falando de soberania alimentar, dignidade, formação e construção comunitária.
Agora, o desafio não é inventar um novo sonho, mas garantir que ele tenha estabilidade, continuidade e longevidade. Vejo meu papel justamente nesse lugar: ajudar a tornar essa experiência ainda mais visível, mais sustentável e mais compartilhada. Porque o Sertão Negro não é apenas um projeto cultural bem-sucedido. É uma demonstração concreta de que a arte pode produzir transformações estruturais quando encontra as condições para agir no mundo.
GSM: A chegada da Beatriz como diretora artística é apresentada por você como um passo importante de profissionalização e institucionalização do Sertão Negro. Quais as mudanças implicadas na passagem entre um projeto que nasceu do gesto íntimo e territorial para uma instituição de referência?
Dalton Paula — A chegada da Beatriz representa um momento de maturidade para o Sertão Negro. À medida que o espaço cresceu, ficou evidente a necessidade de criar estruturas capazes de garantir sua continuidade ao longo do tempo. Tem sido um desafio, mas também uma oportunidade de construir reflexões sobre como conciliar as exigências da institucionalização e os processos burocráticos com as formas de organização de uma comunidade que opera a partir de outras lógicas, fundamentadas em tecnologias ancestrais e modos de fazer historicamente pouco reconhecidos pelos modelos formais. E a Beatriz tem transitado entre esses dois universos com muita sensibilidade.
Acredito que uma das mudanças mais concretas é que deixamos de depender exclusivamente da minha presença e da minha capacidade individual de articulação. Com isso o Sertão Negro pode ocupar um lugar de interlocução mais forte dentro do sistema das artes, com uma equipe capaz de pensar estrategicamente o futuro da instituição e sua construção como referência autônoma de pensamento, formação, experimentação e transformação social.
GSM: Vocês descrevem o Sertão Negro como um “quilombo contemporâneo”, articulando arte, educação, meio ambiente e comunidade. Como essa ideia de quilombo orienta suas decisões artísticas e políticas no dia a dia — e que fricções ela produz quando o projeto entra mais diretamente em diálogo com o circuito institucional e de mercado?
DP — O quilombo é uma tecnologia ancestral de resistência, de produção de conhecimento, de autonomia e cuidado coletivo. É uma forma de imaginar e construir futuro a partir das experiências negras. A referência do quilombo e das comunidades tradicionais estão presentes na maneira como pensamos a ocupação do território, nas práticas de agroecologia, nos processos educativos e também na forma como concebemos a arte. A produção artística não está separada da vida comunitária — ela tem sido para o Sertão Negro uma ferramenta de elaboração simbólica, fortalecimento político e construção de pertencimento.
Naturalmente essa visão produz tensões quando dialogamos com o circuito institucional e com o mercado, e o nosso desafio tem sido justamente criar diálogo sem abrir mão dos princípios que nos orientam. Não queremos apenas ocupar espaços institucionais, queremos também contribuir para transformá-los. O quilombo, nesse sentido, não é apenas um lugar de resistência, mas também uma proposta de reorganização das relações entre cultura, território, natureza e sociedade.
GSM: Sua trajetória internacional — da Bienal de Veneza ao Chanel Next Prize, da presença em acervos como MoMA e MASP a exposições em Nova York — convive com um investimento muito concreto num território específico, o bairro Shangrilá, em Goiânia. Como você equilibra essas duas escalas, e o que espera que a nova fase do Sertão Negro devolva para a cena internacional a partir desse enraizamento?
DP — A circulação me permitiu compreender que muitas das questões que enfrentamos — relacionadas à terra, à ancestralidade, ao racismo, à preservação ambiental e às formas comunitárias de existência — são compartilhadas por diversas populações ao redor do mundo. E isso fortaleceu ainda mais minha convicção de que o local é uma plataforma de produção de conhecimento da máxima importância.
O que espero desta nova fase é ampliar essa contribuição. Mais do que apresentar obras ou projetos, queremos compartilhar experiências e modos de vida que surgem desse encontro. Em um momento em que o mundo busca alternativas para enfrentar crises ambientais, sociais e culturais, acredito que territórios como o Sertão Negro podem oferecer referências importantes. Nossa ambição não é exportar um modelo, mas participar de uma conversa global a partir da posição de quem entende que a transformação do mundo começa pela capacidade de cuidar do lugar onde se pisa.