Almeida & Dale chega ao Sul para seguir à Europa

A chegada da Almeida & Dale ao Sul, em parceria com a Bolsa de Arte, completa o mapa nacional do maior conglomerado de galerias do país, que segue em direção a França.

Sede da galeria Bolsa de Arte, em Porto Alegre.

Bernardo José de Souza estava fazendo o que um curador costuma fazer antes de qualquer exposição coletiva em galeria — vasculhando o que havia disponível no acervo — quando se deu conta de um bronze da artista Sarah Lucas. A obra trazia uma figura feminina de várias tetas, sentada numa cadeira. E, em algum ponto da observaçao, a cabeça do curador saltou para uma ilha do Mediterrâneo que entra em erupção há mais de dois mil anos. “Acredito que ela tenha disparado as reflexões que me levaram ao vulcão e a Stromboli”, ele diz, “explosões de sensualidade, ira e desejo que acabam por transformar os corpos também na sua materialidade.” É um salto que Bernardo não tenta disfarçar. E o resultado tem nome: “Stromboli”, a mostra de 47 artistas que reabriu a sede da Bolsa de Arte em Porto Alegre em junho.

Stromboli, a ilha, é um caso raro. Quase todo vulcão alterna séculos de silêncio com a catástrofe ocasional. Este, por sua vez, irrompe em intervalos curtos e quase metronômicos há tanto tempo que deu nome ao próprio fenômeno — a “erupção estromboliana”. Só que a escolha do curador, vista de perto, tem menos a ver com o estrondo do que com a recusa em parar: “o corpo é aqui entendido como esfera plástica, a partir da qual irrompem forças antagônicas que a um só tempo buscam e rechaçam estabilidade”, escreveu o curador no texto da mostra.

O elenco que ele montou em torno dessa ideia é grande e deliberadamente extenso. Louise Bourgeois, Tarsila do Amaral, Cildo Meireles, Lygia Pape, Arthur Barrio, Robert Mapplethorpe, Amoako Boafo, Toyin Ojih Odutola e uma Adriana Varejão inédita, feita para a ocasião, dividem as salas com gaúchos como Iberê Camargo, Maria Lídia Magliani, Mauro Fuke, Marina Borges e Camila Elis. O arco vai do modernismo brasileiro à produção africana recente, e o corpo que dá título à coisa não é só o humano. “Para além do fator humano, a alegoria com Stromboli sinaliza um mundo material — orgânico, inorgânico, artificial e mesmo ficcional — igualmente em processo de transformação”, diz o curador, apontando para os corpos fraturados e em mutação de Fontana, Ivens Machado, Saint Clair Cemin e Iberê. 

 

Sarah Lucas. ‘Cherie’ (2022), bronze, concreto e aço.

 

Há ainda, num registro mais explicitamente político, os trabalhos que tratam do corpo negro, do corpo gay e trans, do corpo da mulher — aqueles, nas palavras de Bernardo, historicamente moldados “pela violência do trabalho físico, da necropolítica e da censura a comportamentos não normativos”. Curador em Porto Alegre há mais de vinte anos, ele diz nunca ter acreditado em coletivas que se confinam ao local. Em “Stromboli”, não se confinou, mas pôs a abstração europeia ao lado das espiritualidades afro-brasileiras e o eixo Rio-São Paulo ao lado do Sul, sem a menor linha do tempo.

Tudo isso, porém, é a parte da história que cabe nas paredes. A outra parte é institucional, e começa pelo nome de alguns novos sócios em uma galeria de arte.

A Bolsa de Arte existe desde os anos 1980 e tem com o colecionismo gaúcho uma relação de décadas. A galeria, que havia aberto uma extensão em São Paulo, fechou a sede paulistana há pouco tempo — o que, para Marga Pasquali, proprietária histórica da galeria, consiste em voltar a se concentrar na cidade de origem. Ela chama a opção de “retorno às raízes”. Só que a frase tem um obstáculo interessante: o retorno às raízes vem acompanhado da nova sociedade da galeria com a Almeida & Dale, o maior conglomerado de galerias do país — que opera em São Paulo, Rio, Goiânia, Brasília e Recife, e para quem Porto Alegre é justamente o ponto que faltava. 

Mas Pasquali esclarece a aparente contradição. Fechar São Paulo, diz ela, foi trocar dispersão por profundidade: “Concentrar energia em Porto Alegre nos permite atuar de forma mais estratégica e aprofundada.” E a cidade, na sua descrição, vira um novo ponto de partida — “uma plataforma de conexão”, “uma cidade a partir da qual é possível ampliar nossos diálogos nacionais e internacionais do Sul para o mundo”.

Para onde exatamente segue a plataforma de partida, no entanto, quem conta é o sócio Antonio Almeida, da Almeida & Dale. “A internacionalização faz parte dos próximos passos da Almeida & Dale, com a abertura de uma galeria em Paris prevista para 2027”. O resto da fala dele vem no idioma corporativo que essas operações costumam adotar — “estrutura em rede”, “capilaridade”, “processos cada vez mais profissionalizados”, “relações construídas no longo prazo”. Que, traduzido, quer dizer o seguinte: a galeria está fazendo no Brasil, capital por capital, o mesmo que casas como a David Zwirner fizeram pelo mundo. Primeiro se cobre o território para depois cruzar o oceano. E, se Porto Alegre completa o território, agora Paris é a próxima, e nova, parada.

É por essa razão que fica difícil entender “Stromboli” simplesmente como mais uma exposição. Pasquali a descreveu, em entrevista, como “um spoiler do que a gente pode fazer”. E, francamente, Pendurar Bourgeois e Tarsila numa parede de Porto Alegre ao lado de Camila Elis e Mauro Fuke é mesmo um aviso tanto ao colecionador local quanto ao circuito nacional (e, com Paris no horizonte, a quem estiver olhando de fora). Antonio Almeida, por sua vez, não desmente a leitura, já que, segundo ele, “a exposição ‘Stromboli’ materializa bem essa ideia e fluxo de movimento ao reunir obras de Louise Bourgeois, Sarah Lucas e Portinari ao lado de artistas gaúchos.” A parceria, insiste, é “uma via de mão dupla”: traz ao Rio Grande do Sul o que circula globalmente e leva ao mundo o que se produz por ali.

Sobram, então, dois projetos numa exposição só. Para a Bolsa de Arte, “Stromboli” prova que fechar São Paulo foi o reposicionamento de uma galeria histórica que achou no maior grupo do país a alavanca para uma fase nova sem precisar entregar a identidade regional. Para a Almeida & Dale, é a última peça do mapa antes do salto europeu. O que resta é a metáfora, escolhida por outras razões para intitular a exposição e que, sem querer, descreve bem o calendário inteiro da Almeida & Dale. São Paulo, Rio, Goiânia, Brasília, Recife, agora Porto Alegre e Paris em 2027 — uma cidade depois da outra, em intervalos curtos, sem o ano de descanso que separa uma erupção comum da seguinte. Stromboli ergueu uma ilha desse jeito, camada por camada, e nunca entendeu que já bastava. No caso da Almeida & Dale, por sua vez, estamos ainda por entender onde é que isso para.