Toca o terceiro sinal. Os lugares que restavam vagos na plateia do Theatro Municipal de São Paulo são ocupados por aqueles que aguardavam em fila ao lado de fora da sala. Uma audiodescrição antecipa a propaganda que será projetada, em seguida, na tela que serve de anteparo ao palco. Entra a maestra Priscila Bonfim, diretora musical do espetáculo. Irrompem aplausos ao passo que as mãos calam para a música se erguer. Sobre a tela escura são projetadas palavras partidas ao meio, deixando ao leitor a tarefa de juntar seus pedaços, engatando-as em outras meias palavras, até decifrá-las inteiras para então elaborar algum sentido pelo seu encadeamento sucessivo. Os termos que ascendem na tela conduzem às memórias da violência, remetendo a lugares marcados por tragédias, como a Candelária, o Pelourinho e Gaza, mas também nomeiam agentes e tecnologias do massacre, como o torturador (Carlos Brilhante) Ustra, a arma química e o napalm.
Logo perceberemos que a fragmentação vocabular é um dos elementos estilísticos de Luigi Nono, compositor de Intolleranza 1960, ópera que estreou em 1961 como parte da programação oficial do Festival Internacional de Música Contemporânea da Bienal de Veneza, e que conta, em sua montagem brasileira, com a direção cênica dos artistas Eduardo Climachauska e Nuno Ramos. Contudo, o que no veneziano segue a organização silábica, de modo que vozes diferentes completam palavras, aquelas que ocupam a tela o fazem de forma muito mais anárquica, perturbando a leitura. Aos poucos, o anteparo que sustenta a linguagem vai se tornando cada vez mais transparente, revelando uma multidão de cantores enfileirados que entoam a ladainha de abertura...