Em 2020, no auge da pandemia, as duas associações de galeristas de São Paulo — a ABACT, voltada ao mercado primário, e a AGAB, ao secundário — procuraram a empresária Camilla Barella. A cidade, maior polo econômico cultural da América Latina, tinha apenas uma feira de arte constantemente ativa. Era pouco para o tamanho do mercado, e era pouco para o que as galerias precisavam vender. Barella vinha do circuito da moda, tinha migrado para o colecionismo e prestava consultoria havia oito anos para a feira Frieze. “Eles achavam que era muito importante ter uma outra feira”, lembra a fundadora da ArPa. “Naquele momento foi uma ideia que me estimulou bastante.”
A primeira edição da ArPa aconteceu em 2022. O modelo desde o início ia na contramão da lógica concentradora que domina a maior parte das feiras de arte. “Eu sentia falta de uma feira numa média escala e com maior profundidade”, diz Barella. “Eu brincava que queria uma feira que não causasse ansiedade na hora que você entra, que é aquela sensação de ‘nossa, eu não vou conseguir ver tudo, para onde eu vou, o que olho’. E que você não saísse exausto, com a impressão de que viu tudo e não viu nada, falou com todo mundo e não falou com ninguém.” A regra, por isso, que organizou a feira desde então é um tanto simples: apresentar galerias em estandes com menos artistas em formato de uma “miniexposição” capaz de revelar características do programa de cada galeria. “Outras feiras internacionais também estão fazendo isso. A Art Basel Qatar, quando lançou o manual do expositor, tinha bastante coisa encontrada com o nosso.”
A quinta edição, que abre na próxima quarta-feira, propõe um tipo de cartografia. A feira se desdobra em cinco setores — Principal, UNI, Base, Editorial e Institucional — que se propõem, juntos, à tarefa capciosa de uma leitura abrangente da produção latino-americana contemporânea. O recorte chega num momento favorável: o Art Basel and UBS Global Art Market Report 2026 registra crescimento de 21% nas vendas de galeristas brasileiros em 2025, e pesquisa interna da ArPa indica aceleração na entrada de novos colecionadores.
“A gente convida as galerias já parceiras para apresentarem projetos, assim como recebe sugestões do nosso comitê”, explica Cristina Candeloro, sócia-diretora que veio das galerias paulistanas Luisa Strina e outras antes de abrir, em 2008, uma empresa focada em gestão de coleções privadas.
Os critérios são claros: o foco está em galerias com programa sério, exposições regulares, publicação de livros, articulação institucional. “Não é um escritório de arte que compra e vende obra de arte que estaria na ArPa”, afirma Candeloro.

O comitê desta edição é composto por Fabiola Ceni (Nara Roesler, galeria de décadas com sedes em São Paulo, Rio e Nova York), Ana Paula Paccianotto (Fortes D’Aloia & Gabriel, “uma das principais galerias latino-americanas e mundiais”), Rodrigo Mitre (Mitre Galeria, de Belo Horizonte, com forte atuação em artistas racializados) e Max Perlingeiro (Pinakotheke, galeria de mercado secundário em sua segunda geração). “A grande maioria das galerias está representada por eles”, justifica Candeloro. “Não só nos ajudam a conversar com galerias que a gente gostaria de trazer, trazer ideias, analisar os projetos, mas também a contar o que eles próprios precisam ter na ArPa.”
O Setor Principal concentra o maior número de expositores e funciona como espinha dorsal. Os estandes têm 30 ou 50 m² e seguem a regra da feira: todos com até quatro artistas, sendo a maioria com somente três, em formato de “miniexposição”.
Entre as galerias brasileiras participantes estão Almeida & Dale, Athena (estreante, em parceria com a Verve), Casa Triângulo, Danielian, Fortes D’Aloia & Gabriel, Luciana Brito Galeria/Estação, Luisa Strina, Mendes Wood DM, Mitre, Nara Roesler, Pinakotheke e Raquel Arnaud.
Alguns estandes operam como ensaios curatoriais autônomos. A Fortes D’Aloia & Gabriel apresenta um solo de Rodrigo Matheus, expansão site-specific do trabalho que o artista mostrou no galpão da Barra Funda em 2024.
A Nara Roesler dedica a André Griffo a primeira individual do artista na feira — uma surpresa para quem o conhece pelas pinturas figurativas de arquitetura, ponto de fuga e violência estrutural. Em 2026, Griffo apresenta paisagens abstratas. “Ele está provocando uma nova visão pra gente de entender o que mais ele tem para mostrar”, diz Candeloro.
A Almeida & Dale articula cosmologias distintas no diálogo entre Alex Červený e Joseca Yanomami. A Mendes Wood DM aproxima o japonês radicado no Brasil Kansai Noguchi da pintora britânica Varda Caivano. A Pinakotheke leva ao estande uma coleção privada de Farnese de Andrade formada entre as décadas de 1970 e 1980. “Quando a gente olha um Farnese de Andrade, ele tem uma contemporaneidade — está dialogando com artistas produzindo atualmente”, observa Barella. “Essa situação que a gente coloca os secundários, os históricos junto com o contemporâneo, é proposital.”
A presença argentina é uma das marcas do desenho desta edição. Em 2025, Barella fez um recorrido pelas galerias do país a convite da Associação Meridiano e da Secretaria de Cultura. “Esse caminho com a América Latina foi estratégico, mas também foi um pouco orgânico”, afirma. “A gente compartilha de um histórico político cultural similar, então os diálogos fazem muito sentido entre os artistas — ao mesmo tempo que o Brasil é isolado dentro da América Latina pelo nosso tamanho, potência, pela diferença de língua.” Cinco galerias argentinas integram a edição.
O Setor UNI é o núcleo curatorialmente mais articulado da feira. Sob o título Forms of Continuity – Modern and Contemporary Positions from Latin America, reúne 14 mostras individuais com curadoria da colombiana Ana Sokoloff, consultora radicada em Nova York e ex-quadro da Sotheby’s e da Christie’s. “No fundo, uma feira não é uma exposição de museu — ela é um agente muito importante do mercado de arte”, define Candeloro sobre o critério da escolha. Participam, entre outras, as galerias Cave (com Gi Monteiro), Central (Raphael Tepedino), Hache (Santiago García Sáenz, em individual em comemoração aos 20 anos da morte do artista argentino, cuja obra está em coleções do Guggenheim, Pompidou e Museus do Vaticano), Luciana Caravello (Gabriel Pessoto), Marcelo Guarnieri (Ana Sario), Pena Cal (Juliana Bernabé), Pilar (Rodolfo Pitarello), PérezPuig de Porto Rico (Kiván Quiñones Beltrán) e Vermelho (Estevan Davi).
O Setor Base mantém um dispositivo singular no contexto das feiras latino-americanas: cada artista convidado indica um segundo, com quem possui relação pedagógica — professor, mestre, mentor —, para apresentar um projeto conjunto e participar de conversas mediadas ao vivo. Instalado no Ginásio Poliesportivo da Mercado Livre Arena Pacaembu, o setor opera como laboratório curatorial em que obra, trajetória e transmissão de conhecimento se cruzam. As obras são comercializadas. O Setor Editorial reúne as editoras independentes Lovely House, Ubu, Família, Cobogó, Banca Tatu e Celeste. O Setor Institucional abriga MAM-SP, Instituto de Arte Contemporânea (IAC), Comadre, Casa do Povo e 55SP.
Três premiações estruturam o vínculo institucional da feira. A Doação Pinacoteca, em parceria com o ICCo, incorpora ao acervo público da Pinacoteca de São Paulo uma obra escolhida pelos curadores entre artistas ainda não representados na coleção. O Prêmio Melhor Estande reconhece excelência curatorial e expográfica. O Selo Mandacaru seleciona uma obra de artista pertencente a grupos minorizados, com prioridade para mulheres latino-americanas, para o acervo do Instituto Mandacaru. O Programa Prisma, por sua vez, garante que a atuação da feira se estenda muito além dos cinco dias: visitas a ateliês, acesso a coleções privadas, exposições institucionais ao longo do ano, sob coordenação agora aproximada ao Setor UNI por Ana Sokoloff.
Acontece, no fim, que a ArPa parece alimentar algo do esforço por organizar internamente a leitura do circuito latino-americano através de uma feira — e isso no sentido mesmo de tentar ajudar a desenhar um mapa. Por razões como essa, talvez, é que a ArPa seja uma feira de perfil mais modesto e, naturalmente, institucional. Difícil é dizer que a aposta não seja pretensiosa. E só o fato de terem conseguido segurar essa barra por 5 anos, e ainda estarem crescendo num circuito incipiente como o nosso, já é de quebrar a banca.
