Presidente da Bienal de Veneza rebate críticos e defende participação de Rússia e Israel

Pietrangelo Buttafuoco acusou defensores da exclusão de "narcisismo" e "censura" e disse que uma Bienal que seleciona países por passaporte deixa de ser "o lugar onde o mundo se encontra"

 

Três dias antes da abertura ao público da 61ª Bienal de Veneza, o presidente da instituição, Pietrangelo Buttafuoco, convocou uma conferência no Teatro Piccolo dell’Arsenale e foi ao ataque. Em discurso inflamado na quarta-feira, 6 de maio, Buttafuoco acusou os críticos da participação de Rússia e Israel no evento de “narcisismo” e “censura”, e defendeu a posição da Bienal com uma formulação que sintetiza o argumento central de sua gestão: “Se a Bienal começasse a selecionar obras com base em passaportes, deixaria de ser o que sempre foi — o lugar onde o mundo se encontra.”

O contexto em que a declaração foi feita é o mais turbulento que a Bienal enfrentou em décadas. O retorno da Rússia ao evento — o primeiro desde a invasão em larga escala da Ucrânia, em 2022 — gerou reação imediata do governo italiano. O ministro da cultura, Alessandro Giuli, enviou inspetores à instituição para apurar o papel da gestão na decisão e verificar se houve violação de sanções. O relatório, submetido ao gabinete da primeira-ministra Giorgia Meloni, foi publicado na íntegra por veículos de imprensa. Em sete páginas de atas, representantes da Bienal afirmaram que a Rússia não foi formalmente convidada — que a decisão de participar é tomada pelos próprios países — e que a conformidade com as sanções internacionais foi avaliada “na medida do possível com as informações disponíveis”.

A participação de Israel também acumula pressão. A Art Not Genocide Alliance (ANGA), coalizão de artistas, curadores e trabalhadores culturais, entregou em março uma carta assinada por trabalhadores da Bienal pedindo a exclusão do país. Até 4 de maio, a carta havia sido assinada por 232 pessoas. A abertura à imprensa foi marcada por uma manifestação com 200 participantes organizada pela ANGA, e o grupo dissidente russo Pussy Riot se aliou ao grupo ativista feminista FEMEN para cercar o pavilhão russo. Para esta quinta-feira, 8 de maio, trabalhadores culturais e participantes da Bienal anunciaram uma greve.

O pavilhão russo estará aberto durante os quatro dias de abertura à imprensa, mas permanecerá fechado ao longo dos seis meses do evento por conta das sanções da União Europeia. Vídeos serão projetados na parede externa durante o período de fechamento. A situação jurídica da Bienal em relação ao pavilhão israelense também é delicada: segundo o relatório do ministério, representantes da instituição afirmaram estar “conversando” com os ex-membros do júri para avaliar como responder a uma solicitação dos advogados do artista Belu-Simion Fainaru, que representa Israel, por danos decorrentes de “discriminação” após a decisão do júri de excluir países com líderes sob mandado do Tribunal Penal Internacional.

Buttafuoco reservou elogios à primeira-ministra Meloni, que, apesar de se opor à participação da Rússia, declarou respeitar a “autonomia” da Bienal e chamou Buttafuoco de “amigo”. A decisão do presidente de criar prêmios do público após a renúncia do júri foi descrita por Meloni como “engenhosa”. “Foi justamente esse ‘mas’ que, à sua maneira — e agradeço a ela —, confirmou de forma ressonante e definitiva a liberdade e a autonomia”, disse Buttafuoco em referência à ressalva da primeira-ministra. O evento abre ao público em 9 de maio.

Você também pode gostar