Crise geopolítica ameaça os Leões de Ouro da Bienal de Veneza 2026

Após excluir Rússia e Israel da disputa, júri presidido por Solange Farkas renuncia coletivamente e deixa o futuro dos prêmios em aberto

Foto: Reprodução/La Biennale.org

O principal prêmio da Bienal de Veneza virou, em 2026, o centro de uma crise que vai muito além do campo artístico. A poucos dias da abertura, a decisão do júri de excluir Rússia e Israel da disputa pelos Leões de Ouro, seguida pela renúncia coletiva do júri, terminou revelando um conjunto de controvérsias relacionadas ao próprio funcionamento da mostra.

A decisão partiu de um posicionamento inédito do júri internacional, presidido por Solange Farkas, que deixou claro o seu desinteresse por avaliar ou premiar pavilhões de países cujos líderes são investigados por crimes de guerra pelo Tribunal Penal Internacional. A medida atingia diretamente Rússia e Israel e deslocava o debate para um ponto sensível da bienal: a dificuldade de separar a produção artística das estruturas estatais que sustentam os pavilhões nacionais.

O gesto colocou em tensão o próprio funcionamento da Bienal. Ao tentar aplicar um critério político sobre o sistema de premiação, o júri esbarrou em um modelo organizado justamente a partir da representação entre países, com implicações que iam além do campo simbólico e atingiam a estrutura institucional da mostra.

Sem que o impasse fosse resolvido, os cinco membros do júri renunciaram coletivamente. A saída desestabilizou o sistema de premiação e colocou em suspenso o papel dos Leões de Ouro nesta edição. Só que o episódio revela a fragilidade de um mecanismo que, ao mesmo tempo em que pretende reconhecer práticas artísticas, permanece ancorado em uma lógica nacional cada vez menos funcional.

A crise também reverberou entre artistas e agentes do circuito. Anish Kapoor elogiou publicamente a posição do júri e afirmou que os Estados Unidos também deveriam ser excluídos da premiação. Isso joga, de novo, uma questão inevitável sobre a mesa: se o critério é político, por que ele só é aplicado a alguns países?

O fato é que a crise da 61ª Bienal de Veneza é, acima de tudo, geopolítica. Em uma mostra estruturada por representações nacionais, o reconhecimento artístico acaba inevitavelmente envolvido dentro desse campo de forças, e a edição de 2026 tem revelado muito bem o quanto isso é incontornável.

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