Bienal de Veneza abandona o Leão de Ouro e entrega os prêmios ao público

Após a renúncia coletiva da júri internacional, a Fundação substituiu a premiação tradicional pelos "Leões dos Visitantes" — e recolocou Rússia e Israel na disputa

 

A 61ª Bienal de Arte de Veneza abre em 9 de maio sem seu prêmio mais cobiçado. Após a renúncia coletiva da júri internacional, a Fundação Bienal anunciou a criação dos “Leões dos Visitantes”: serão os próprios frequentadores da mostra que elegerão o melhor pavilhão nacional e o melhor artista da exposição principal.

A decisão encerra uma sequência de crises que transformou a edição em campo de batalha político. No dia 22 de abril, a júri havia declarado que não consideraria para os prêmios países cujos líderes enfrentassem acusações de crimes contra a humanidade no Tribunal Penal Internacional — excluindo diretamente Rússia e Israel. A renúncia coletiva, em 30 de abril, foi o desdobramento de uma posição que a própria Fundação não estava disposta a sustentar.

Com os Leões dos Visitantes, a exclusão foi revertida. Todos os pavilhões nacionais oficiais poderão concorrer “seguindo o princípio de inclusão e tratamento igualitário entre todos os participantes” — linguagem que recoloca Rússia e Israel na disputa e enquadra a medida como defesa da abertura institucional.

A cerimônia de premiação foi transferida para 22 de novembro, último dia da Bienal, para manter o período de votação aberto durante toda a duração do evento. Os ingressos darão direito a voto tanto nos pavilhões quanto nos espaços da exposição principal. Embora a Fundação já tenha adiado cerimônias no passado, esta parece ser a primeira vez que os visitantes assumem integralmente a responsabilidade pela premiação.

Ao transferir a decisão para o público, a Fundação se esquiva de arbitrar conflitos geopolíticos que, segundo sua própria defesa, não cabem a uma plataforma de arte. O problema é que essa neutralidade declarada também é uma escolha — e uma que não passa despercebida num momento em que galerias boicotam, governos retiram financiamento e artistas exigem posicionamento.

A Bienal de 2026 começa sem júri, sem Leão de Ouro e com um pavilhão russo que estará no mapa, mas não nas salas. O que sobra é a arte — e a pergunta sobre o quanto ela ainda consegue sustentar o peso que o mundo insiste em colocar sobre ela.