Vendas no 1° dia da SP-Arte 2026 revelam tickets maiores e incerteza das galerias

Primeiro dia combina obras milionárias, elevação do ticket médio e maior risco para galerias de menor porte.

Detalhe de Obra de Rubem Valentim que faz parte do estande da Galatea.
Detalhe de Obra de Rubem Valentim que faz parte do estande da Galatea.

 

A abertura da SP-Arte 2026 confirmou os ânimos do mercado brasileiro, com um primeiro dia marcado pela venda de obras importantes e pela presença de tickets em dólar que conectam a feira à dinâmica internacional de preços. 

Apresentamos neste artigo alguns destaques das vendas da feira no primeiro dia (quarta-feira) a partir do que foi reportado ao AQA pelos galeristas nos seus estandes da feira.

O perfil das transações indica preferência por obras com forte lastro institucional – da arte moderna ao conceitualismo latino-americano, passando pela arte popular e por artistas de gerações intermediárias cuja valorização se consolidou na última década.

Embora o valor total de vendas ainda não seja oficialmente divulgado, os casos reportados pelas galerias já permitem entrever um volume relevante, ainda que instável pela variação dos relatos – entre galerias com um bom saldo da feira e outras nem tanto – que pareceu mais intenso do que nos últimos 2 anos.

A Galatea reportou a venda de dois Rubem Valentim e de um Ivan Serpa como destaques. Com vendas em valores mais altos e diversas obras que chegaram à feira já vendidas, a galeria teve, no primeiro dia, 3 vendas na faixa de R$ 1 milhão.

Entre as negociações de maior peso no primeiro dia, a Gomide&Co se destaca. A galeria reportou a venda de um Amadeo Lorenzato por R$ 800 mil, bem como um Hélio Oiticica e um León Ferrari na faixa, ambos, de R$ 1 milhão.

 

Obra de Hélio Oiticica no estande da Gomide&Co.

 

A Fortes D’Aloia & Gabriel registrou uma venda robusta de Leda Catunda, confirmando o fôlego da artista no topo do segmento de pintura brasileira contemporânea, em especial em trabalhos que articulam memória material, cultura de massa e experimentação formal. Além disso, a galeria negociou obras de artistas como Antonio Tarsis e Márcia Falcão, combinando um patamar intermediário de consolidação (no caso de Tarsis) com um degrau de entrada ainda mais acessível. Mas isso num registro claramente voltado à expansão de base internacional que a galeria teve sempre o bom hábito de cultivar. 

Oferecendo obras emblemáticas de artistas já consagrados ao lado de peças de artistas mais jovens, os tickets dessas vendas da galeria variaram de R$ 40 mil até mais de R$ 500 mil.

A Galeria Continua, com atuação transnacional, teve um primeiro dia marcado por vendas consistentes em artistas que tensionam arquitetura, urbanismo e memória política. Obras de Ana Maria Tavares foram quase todas vendidas, demonstrando que a pesquisa da artista – entre dispositivos arquitetônicos, mirantes, mobiliário e circulação – encontra eco em colecionadores interessados em interseções entre espaço expositivo, desenho industrial e crítica institucional.

Também todos os trabalhos de Osvaldo González levados à feira foram vendidos, na faixa de sinal de que sua cartografia material de espaços domésticos e urbanos, muitas vezes construída a partir de fitas adesivas e planos de cor, vem ganhando tração no circuito latino-americano. Complementando o conjunto, a galeria reportou ainda a venda de trabalhos de Carlos Garaicoa, o que reitera a centralidade da discussão sobre cidade, ruína e poder na formação de coleções contemporâneas. Os trabalhos foram vendidos entre R$ 150 e 400 mil, sendo a maior parte deles na faixa de R$ 300 mil.

A Albuquerque Contemporânea, por sua vez, reportou a venda de um Nuno Ramos por R$ 350 mil, inserindo a produção do artista – marcada por fricções entre texto, matéria e política – na lista de obras de ticket alto confirmadas no início da feira.

A Galeria Estação, um dos principais nomes quando se trata de arte popular e de tradição no Brasil, teve um dia forte. Além das vendas já registradas de um relevo e uma xilogravura de Santídio Pereira e uma obra de Izabel Mendes da Cunha, a galeria vendeu ainda quatro trabalhos de Aurelino dos Santos, na faixa todos eles de R$ 30 mil a mais de 170 mil cada.

Na Galeria Raquel Arnaud, o primeiro dia também trouxe resultados significativos. Foram vendidos artistas como Amilcar de Castro, Célia Euvaldo, Elizabeth Jobim e Iole de Freitas, reafirmando o contínuo interesse pela genealogia construtiva brasileira e por suas derivações contemporâneas. As vendas flutuaram entre valores que vão de R$ 60 mil até mais de R$ 200 mil.

 

Obra de Célia Euvaldo no estande da Galeria Raquel Arnaud.

 

No campo das gerações intermediárias e da produção contemporânea com lastro institucional, o primeiro dia da SP-Arte 2026 trouxe bons ventos. A Galeria Marília Razuk confirmou a venda de um trabalho de Hilal Sami Hilal, além de outras vendas importantes entre R$ 50 e 180 mil.

A Cerrado Galeria, teve destaque na venda de uma Conceição dos Bugres e de duas aquarelas de Dalton Paula, ambos na faixa de R$ 100-150 mil. As obras de Dalton, vendidas em dólar, mostram o crescimento do artista no cenário internacional e a importância que iniciativas como o Sertão Negro tem tomado no mercado de arte.

Na Janaina Torres Galeria, obras de Sandra Mazzini e Jeane Terra foram vendidas na faixa de R$ 51 mil a R$ 175 mil, reforçando a demanda por artistas contemporâneas cujo trabalho combina pesquisa de materiais, paisagem e arquitetura em registros pictóricos e instalativos.

Os resultados do primeiro dia da SP-Arte 2026 sugerem que a feira mantém uma combinação de fatores: colecionadores ativos e um repertório de artistas modernos, populares e contemporâneos em franca reavaliação e um contexto local que, apesar das incertezas macroeconômicas, segue sustentando um mercado em expansão.

Ainda que as galerias tenham reportado variações enormes de vendas – com diversos relatos de nenhuma venda relevante no primeiro dia e, noutros casos, de negociações grandes ou sold out – poucas vendas na casa dos milhões aconteceram (ou, ao menos, foram reveladas).

Galerias menores (que são sempre as mais frágeis em relação aos gastos da feira) parecem ter tido sucesso em vender obras em tickets mais altos, na casa de mais de R$ 100 mil, do que ano passado. E a frequência de trabalhos entre R$ 20 e 40 mil que dominava as vendas de valores menores foi elevada para R$ 30 a 50 mil nesta edição. Isso indica um cenário de incerteza, em que galerias menores passam a correr mais risco de não fazer vendas relevantes na feira, mas ao mesmo tempo têm maior chance de prosperar.

Quanto às galerias grandes, as negociações têm o hábito de levar um pouco mais de tempo. Natural, por isso, que não seja o primeiro dia o melhor para fazer um balanço definitivo. Mas, ao que tudo indica, houve vendas robustas já nas primeiras horas da feira, apesar de não tão grandes quanto no ano passado.

O AQA lança na próxima segunda um relatório com as vendas gerais da feira, entre quarta e domingo. O que esperar das galerias grandes, talvez aí, fique um tanto mais claro.