Em 1963, a polícia encerrou a primeira exposição individual de Georg Baselitz em Berlim Ocidental e confiscou duas telas sob acusação de obscenidade. Uma delas, Die Grosse Nacht im Eimer — algo como “A Grande Noite no Balde” —, mostrava uma figura masculina raquítica com o pênis ereto e desproporcional, quase cômico na sua tragédia. Baselitz tinha 25 anos. Nasceu numa aldeia na Saxônia cujo nome carregaria para sempre em seu próprio, e já deixara claro que não pretendia facilitar a vida de ninguém. No dia 30 de abril de 2026, morreu com 88 anos logo depois de produzir a sua última série de pinturas, que estrearam em exposição aberta na manhã de ontem na Fondazione Giorgio Cini, em Veneza. E ele sabia que essa seria a última.
Hans-Georg Bruno Kern nasceu em 23 de janeiro de 1938 em Deutschbaselitz, no estado da Saxônia. Seu pai era professor e membro do Partido Nazista — punido após a guerra com a proibição de dar aulas — tendo a mãe, por sua vez, assumido depois as funções dele na escola. O menino cresceu no que restava. Não apenas dos edifícios, mas de uma ordem moral inteira que havia já caído por terra. Em 1957, antes de o Muro sequer existir, deixou a Alemanha Oriental assim que foi expulso da Academia Weißensee, em Berlim, por “imaturidade sociopolítica” — ao menos é esse o diagnóstico que as academias costumam dar quando não rola muito bem de explicar o problema. Chegou a Berlim Ocidental com o nome transformado. Nasce daí o Georg Baselitz, com sua cidade de origem encravada na identidade.
Mas o escândalo de 1963 foi apenas o primeiro. Dois anos depois, chegou...