
A SP-Arte chega à sua edição de 2026 com uma nova leva de expositores que passam a integrar o evento pela primeira vez. Entre galerias e estúdios de design, essas estreias não se limitam à novidade: elas apontam para a incorporação de outros repertórios, geografias e formas de atuação no interior da feira.
Através de recortes curatoriais mais definidos ou pesquisas centradas na materialidade e no fazer, esses novos estandes chamam atenção por estratégias que ultrapassam a lógica da presença pontual de um estreante, sugerindo inserções mais duradouras no circuito.
O AQA selecionou cinco novos expositores, entre galerias de artes e estúdios de design, que se destacam por com propostas que tensionam narrativas hegemônicas, aproximam temporalidades distintas e deslocam saberes tradicionais para o campo contemporâneo.
Orma

Com raízes no Brasil e na Itália, a Galeria Orma se estrutura como uma plataforma de intersecção entre contextos culturais distintos. A galeria investe na construção de um espaço de encontro entre práticas e ideias, mobilizando projetos que partem do cotidiano dos próprios artistas e de suas transformações para propor leituras críticas do presente.
Na SP-Arte, a galeria apresenta um recorte da produção do artista brasileiro Daniel Lannes. Sua pintura se organiza em torno do corpo – físico, histórico e cultural –, atravessado por tensões onde sexo, poder e violência operam como eixos estruturantes. Transitando entre figuração e abstração, suas obras alternam entre a construção de imagens reconhecíveis e a sugestão de cenas em estado de dispersão, abertas à imaginação. Com pinceladas amplas e um uso de cor que equilibra rigor técnico e abertura ao acaso, Lannes articula, em suas telas, o acidente do processo e a intenção narrativa. O resultado são imagens que não se esgotam naquilo que mostram.
Crisis Galería

Fundada em 2017 no distrito de Barranco, em Lima, a Crisis Galería se constrói a partir de um compromisso com a cena local e com a formulação de narrativas críticas ancoradas em perspectivas latino-americanas. Sua atuação combina exposições com um programa público ativo, que inclui cineclube, publicações e performances.
Na SP-Arte, integra o setor Showcase, dedicado a galerias internacionais estreantes ou em retorno à feira, e apresenta um solo do peruano Santiago Yahuarcani. A participação coincide com a presença do artista no MASP, onde integra o programa “Histórias latino-americanas”, ampliando sua visibilidade no circuito institucional brasileiro.
Produzidas sobre llanchama, suporte vegetal também conhecido como tururi em partes do Brasil, suas pinturas conectam memória, cosmologia e crítica. Entre figuras da floresta, entidades oníricas e cenas em transformação, as obras abordam as violências contínuas do extrativismo e da exploração do meio ambiente, operando entre experiência sensível e denúncia política.
MITS Galeria

Entre as estreias desta edição da SP-Arte, a MITS Galeria chama atenção por apostar menos em um nome ou em uma afirmação isolada e mais na construção de um raciocínio expositivo. Em vez de apresentar um conjunto de obras como vitrine, o estande se organiza como uma espécie de ensaio visual, em que diferentes tempos e procedimentos são colocados em relação.
A presença simultânea de artistas como Anna Maria Maiolino e Mira Schendel, ao lado de produções mais recentes, coloca diferentes gerações em diálogo direto. Ao apostar em nomes centrais da arte brasileira do século XX logo em sua estreia, a galeria já se apresenta com força, ancorando sua participação em um repertório consolidado. E o que fica evidente é menos uma linha evolutiva do que zonas de contato em que o gesto, a matéria e a imagem já aparecem colocados em outras condições.
Ao recusar uma hierarquia evidente entre passado e presente, o estande constrói um campo em que as obras se relacionam — e é nesse equilíbrio entre nomes históricos e produções contemporâneas que se torna possível enxergar um indicativo de consistência.
Estúdio Pedro Luna

A estreia do Estúdio Pedro Luna na SP-Arte se destaca por um ato de deslocamento preciso no design: transportar uma técnica vernacular para um campo material e simbólico distinto. Na coleção “Linha Trama”, a tecelagem manual em palha de taboa deixa de ser apenas processo para se tornar matriz — não no sentido figurativo, literalmente como molde para superfícies fundidas em alumínio e latão.
Mas o que chama atenção aqui é a maneira como ele é tensionado. Ao converter a flexibilidade da fibra em rigidez metálica, o projeto altera a matéria e o próprio regime de percepção desses objetos. Texturas associadas ao uso cotidiano e à escala doméstica reaparecem como estrutura, sustentando mesas, bancos e aparadores que carregam, ao mesmo tempo, peso físico e memória. Sem recorrer a uma ideia nostálgica de tradição, o trabalho de Pedro Luna é sustentado pela transformação da matéria.
Gustavo Neves

Na sua primeira participação na SP-Arte, Gustavo Neves apresenta uma produção que se organiza a partir de um princípio formal claro – a repetição –, mas que encontra força justamente nas variações que esse sistema permite.
A coleção “Fractais” parte de uma lógica geométrica reconhecível, em que formas se desdobram em diferentes escalas e materiais, criando um conjunto que se percebe quase como um organismo em expansão. O trabalho investe na ambiguidade entre natureza e construção. As peças em bronze, madeira e vidro soprado operam nesse limiar: ao mesmo tempo em que evocam estruturas orgânicas como fósseis, minerais e outras formações naturais, elas afirmam seu caráter artificial, resultado de um controle técnico rigoroso. Isso pode ser notado tanto na repetição das formas quanto na escolha dos materiais, que deslocam constantemente a leitura entre o que parece encontrado e o que é construído.
Há também um interesse evidente na experiência sensorial desses objetos. Superfícies que confundem o olhar, escalas que variam sutilmente e materiais que carregam diferentes densidades fazem com que cada peça funcione como variação de um mesmo problema formal.
Serviço
Horários:
9 e 10 de abril: das 12h às 20h
11 de abril: das 11h às 20h
12 de abril: das 12h às 19h
Ingressos:
R$ 120 (inteira)
R$ 60 (meia-entrada)