Marcela Dias: Depois de tudo

Na coluna "Plano", Gabriel San Martin escreve um texto crítico toda semana.

As pinturas de Marcela Dias parecem começar já no meio de alguma coisa. Na sua segunda individual em São Paulo, na Claraboia, a artista recifense apresenta telas em que campos de cor frágeis e formas esboçadas se organizam como superfícies que carregam sinais de desgaste desde o início. Entre tons pálidos levemente esmaecidos e geometrias que nunca se estabilizam por completo, o conjunto sugere uma pintura em que a imagem se revela sempre à beira de perder consistência — como se cada trabalho equilibrasse a afirmação de si mesmo e a corrosão que atravessa a sua própria condição de existência.

Provavelmente pela relação da artista com a paisagem recifense – como as fachadas modernistas gastas pela maresia –, Marcela trabalha com campos de cor induzidos a ensaiar sempre um tipo de geometria na iminência do desmanche. E, assim como as formas perdem a sua vocação definida, aquela luz amarelada da pintura paisagística de Pernambuco já não parece iluminar tanto quanto revela um amarelar dos dentes. É por isso que a fragilidade anêmica dos tons pastéis unida à indefinição das formas leva a espontaneidade aparente dos gestos a exigir um grau de projeto justamente para calcular quanto de desgaste cada superfície ainda aguenta até ceder.

Geralmente quando se fala de uma “pintura tonal”, ao menos em São Paulo, existe o hábito de assumir que...

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