
Entre o sapo Caco, dos Muppets, inflável monumental posicionado na praça Vendôme pelo artista venezuelano-americano Alex Da Corte e a ação do japonês Takashi Murakami feita em parceria com a Louis Vuitton, Paris se tornou o centro das atenções na última semana para os interessados por arte. E nem estamos falando do roubo ao museu do Louvre, mas das galerias que exibiram obras e coleções sob a icônica abóbada do Grand Palais e viram colecionadores de arte movimentarem cifras relevantes na Art Basel Paris. Mais do que isso, uma discussão sobre o mercado de arte e a relevância da capital francesa no polo europeu ganharam novos contornos.
Isso porque a quarta edição da feira, encerrada neste domingo, 26 de outubro, foi, segundo galeristas e especialistas, um respiro e talvez uma virada de chave.
Os expositores estavam ansiosos para dar fim ao momento de pessimismo que ronda o mercado de arte nos últimos anos. Um relatório anual do Art Basel & UBS Global Art Market Report apontou uma queda de 12% de vendas combinadas entre leiloeiros e galeristas no ano passado, o que totaliza um valor de 57,5 bilhões de dólares. A demanda estava enfraquecida, muito pelas incertezas geopolíticas e econômicas, pelo alto custo para conservação, transporte e seguro de obras, e pelas tarifas impostas sob a administração Trump.
Ainda assim, os efeitos do Brexit se manifestam em todas as esferas imaginadas, o que direcionou um interesse maior para a cena parisiense. Soma-se a isso o fato de que, de acordo com o jornal francês Le Monde, a riqueza acumulada na cidade atingiu recentemente “proporções inéditas”. A expectativa era que a feira movimentasse 442 milhões de euros e recebesse 73 mil visitantes.
Em entrevista ao jornal The New York Times, Noah Horowitz, chefe executivo da Art Basel, afirmou dentro do Grand Palais que “a demanda para participar da feira em Paris foi muito alta”.

E o que se viu na Art Basel Paris confirmou a atitude positiva, de certa forma. A começar a galeria Hauser & Wirth que anunciou a venda de uma pintura do alemão Gerhard Richter por 23 milhões de euros, no primeiro dia da pré-abertura apenas para convidados, novidade desta edição da Art Basel Paris. A “Avant-Premiére” possibilitou aos galeristas convidar pessoas para um dia mais reservado e garantiu grandes vendas em poucas horas. Colecionadores norte-americanos compareceram em peso ao evento, incluindo Pamela Joyner, José e Alberto Mugrabi, J. Tomilson Hill e Helen Schwab, o que impulsionou o otimismo. Ainda assim, a ação para os V.I.P.s dividiu opiniões, principalmente entre galerias pequenas e médias que, para o ARTnews, disseram que “deixou à desejar”.
A maioria das galerias do setor principal decidiu por apresentações em grupo, explorando a amplitude e a força de seus acervos. Galeristas notaram negócios ocorrendo por toda semana, apontando que muitos clientes do primeiro dia retornavam à feira para confirmar aquisições. E visitantes confirmaram que a qualidade e as faixas de preço de várias obras apresentadas na Art Basel Paris superaram as da edição de junho em Basileia, na Suíça, tradicionalmente a feira mais importante do mundo da arte. A organização planeja lançar um novo evento em Doha, no Catar, em fevereiro, novo front do colecionismo e mercado da arte.
A colecionadora de arte e filantropa polonesa Grażyna Kulczyk disse, para o Artnews que, “depois da onda de fascínio pelo novo, existe agora uma curiosidade crescente pelo passado, num desejo de entender como o presente se conecta com o que veio antes.”
Essa afirmação reverbera na escolha da Gagosian Gallery em levar “The Virgin and Christ Child”, pintura de 1611-14, de Peter Paul Rubens para o evento. A galeria recebeu permissão especial da Art Basel Paris para exibir uma obra anterior aos anos 1900, o que foge à condição de período imposta pela feira. Tal concessão foi permitida em reconhecimento ao valor histórico da pintura e pela forma como ressoa em trabalhos modernos e contemporâneos, como do artista John Currin, que a galeria também levou para a feira.
Os números e o apetite dos colecionadores sinalizam uma estabilização (e não um boom) e confirmam Paris como a praça europeia mais estratégica do momento, especialmente enquanto Londres lida com os efeitos do Brexit e Basileia enfrenta queda de ritmo. Se a feira não resolveu todos os receios, ao menos devolveu ao mercado a sensação de que o pior já passou. Há capital, há interesse e, sobretudo, há uma disputa por protagonismo. A pergunta agora é se Paris consegue sustentar esse fôlego para além da semana da Art Basel.
Confira algumas das principais vendas da Art Basel Paris 2025:
Gerhard Richter, “Abstraktes Bild (Abstract Painting)”, 1987
Hauser & Wirth
US$23 milhões
Julie Mehretu, “Charioteer”, 2007
White Cube
US$11,5 milhões
Amedeo Modigliani, “Jeune fille aux macarons”, 1918
Pace Gallery
US$10 milhões
Ruth Asawa, “Sem Título”, c. 1960
David Zwirner
US$7,5 milhões
Marina Rheingantz, “Depois da Chuva”, 2024
Bartolami Gallery
US$220 mil
Elizabeth Peyton, “The Solemn Entry of Louis XIV 1667”, 2016
Thaddaeus Ropac
US$1,3 milhões





