
A temporada de leilões de maio em Nova York confirmou uma tendência que vem se desenhando há alguns anos: o mercado de arte está se polarizando. De um lado, recordes históricos para grandes nomes do século 20. Do outro, um mercado primário em dificuldades e jovens artistas praticamente ausentes das salas de leilão.
Os números falam por si. Jackson Pollock alcançou 181 milhões de dólares, Brâncuși 108 milhões e Rothko 85,7 milhões. Ao menos 20 lotes de nomes como Picasso, Warhol, De Kooning, Basquiat e Richter foram estimados em 30 milhões ou mais. A coleção de S. I. Newhouse, consignada à Christie’s, e a de Robert Mnuchin, na Sotheby’s, foram os grandes motores da temporada.
Mas basta olhar para o outro lado do espelho. Na leilão noturno contemporâneo da Sotheby’s, com 45 lotes, apenas dois eram de artistas com menos de 40 anos. Na Christie’s, um único lote dessa faixa etária entre 31 obras. Mesmo a Phillips, que nos últimos anos havia se especializado em revender trabalhos de artistas emergentes, teve pouco a oferecer nesse segmento.
“A espuma especulativa foi removida de praticamente todo o mercado de arte”, diz o colecionador belga Alain Servais. Para ele, o abismo entre os preços que galerias pedem por obras novas e os valores pelos quais peças comparáveis são adquiridas em leilão está corroendo a confiança no mercado primário. Servais cita um exemplo concreto: em Hong Kong, lhe ofereceram uma obra por 85 mil dólares; dias antes, havia adquirido uma peça comparável do mesmo artista na Phillips por 5 mil.
Esse desequilíbrio, somado aos altos custos de manutenção de espaços físicos e participação em feiras, está por trás da recente onda de fechamentos de galerias. Ainda assim, o mercado primário não está morto para artistas com trajetória consolidada. A galeria londrina Josh Lilley esgotou em abril uma mostra do pintor britânico Nick Goss com obras entre 55 e 65 mil libras.
A questão que paira é de longo prazo: por quanto tempo os compradores pagarão preços crescentes por Picasso e Warhol? E o que acontece quando a geração que cresceu com esses artistas não estiver mais comprando?