
No acervo de obras do Museu de Arte Contemporânea de Campinas, entre obras acumuladas e décadas de silêncio, um sanduíche de acrílico chamou a atenção de um professor de história da arte da Unicamp, Gabriel Zacarias. O formato era incomum o suficiente para levá-lo a parar – e, para sua surpresa, ali estava um Objeto Gráfico de Mira Schendel, doado pela própria artista ao Salão de Arte Contemporânea de Campinas em 1967, premiado, incorporado ao acervo e então desaparecido do radar de todo mundo: pesquisadores, especialistas, e até da família da artista.
A descoberta aconteceu durante a preparação de “Nada como um dia depois do outro”, exposição que reuniu os acervos do MACC e do Museu de Artes Visuais da Unicamp. A equipe coordenada por Gabriel Zacarias cruzou catálogos históricos dos Salões de Arte Contemporânea de Campinas com o que havia guardado na reserva técnica, um trabalho de detetive em que nem sempre o que aparecia nos registros correspondia ao que estava nas prateleiras, e nem tudo que estava nas prateleiras havia saído de lá nas últimas quatro ou cinco décadas. Foi nesse levantamento que o nome de Schendel surgiu, e foi na reserva que a obra apareceu.

Ada Schendel, filha da artista e responsável por seu arquivo, hoje com mais de 2.000 trabalhos, sabia da existência da peça, mas não que ela estava em Campinas. Acredita que pode ser um dos primeiros exemplares da série, e disse ter ficado surpresa com o achado: muita gente já havia pesquisado sobre os Objetos Gráficos, e esse havia escapado a todos. A série, desenvolvida no final dos anos 1960, é um núcleo central da produção de Mira Schendel: folhas de papel artesanal presas entre placas de acrílico, numa estrutura que a própria artista descreveu em diário como “uma tentativa de mostrar que o lado atrás da transparência está na sua frente e que o outro mundo é Este”. Um ano após o salão em Campinas, ela representou o Brasil na Bienal de Veneza apresentando doze Objetos gráficos.
Para Taisa Palhares, professora da Unicamp e uma das principais estudiosas da artista, os Objetos Gráficos constituem uma das séries mais originais de Mira, aquela em que ela trabalha transparência, matéria e linguagem “de maneira completamente experimental”. A descoberta, segundo ela, não vai modificar a leitura da série, mas acrescenta um novo objeto. O fato de não existir nenhuma reprodução conhecida da obra, no entanto, aponta para um problema mais amplo: “Me parece urgente que a arte brasileira em geral seja melhor documentada e catalogada. Há pouquíssimos estudos e catálogos raisonnés de artistas brasileiros, o que facilita a desinformação e dificulta muito o acesso à arte brasileira como um todo. Além de facilitar a circulação de obras falsas.” Para ela, isso passa também por uma maior valorização dos arquivos de artistas, algo que já acontece no mundo todo e é fundamental para as pesquisas históricas futuras. “Acho que estamos em um estágio do sistema de arte no Brasil que este problema não pode mais ser ignorado.”

O peso do achado fica mais claro com um dado de mercado: em dezembro do ano passado, o Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires adquiriu um objeto gráfico de Schendel por US$ 2,5 milhões. No Brasil, nenhum exemplar da série está em coleção pública, os poucos que permanecem no país estão em mãos privadas. A obra encontrada no MACC tem uma mancha de umidade, condição comum entre os objetos gráficos, já que o acrílico compromete a respiração do papel. Ainda assim, foi ela que abriu a exposição em Campinas, suspensa logo na entrada para que o público pudesse circular ao redor e ver através. Gabriel Zacarias conta que, durante a preparação da mostra, visitou o MoMA e viu um objeto gráfico de Schendel com problema semelhante em exibição. A conclusão foi direta: se o MoMA expõe, Campinas também pode.
O que fazer com a peça a partir de agora segue sem resposta. Palhares é direta: “Eu acredito que essa obra precisa ter maior visibilidade e enquanto o MACC não puder garantir uma conservação adequada para a peça, ela deveria ficar em comodato em um museu com condições de conservação e exposição adequadas. Apesar de ser um patrimônio da cidade de Campinas, acredito que antes de tudo trata-se de um patrimônio artístico brasileiro. Por isso, seria muito triste se o trabalho voltasse para reserva técnica e ficasse guardado por mais algumas décadas.”
O objeto gráfico de Schendel foi o achado mais expressivo da pesquisa, mas não o único, a mesma investigação trouxe à tona três obras da série “Movimento estudantil 68”, de Antonio Manuel, e uma pintura de Carmela Gross, ambos nomes centrais da arte brasileira do período. Juntos, esses reencontros apontam para o potencial ainda inexplorado de reservas técnicas pouco revisitadas, e para uma pergunta que o episódio deixa no ar: quantas outras obras seguem à espera, entre prateleiras silenciosas, de alguém que pare e olhe?